Após morte de Sicário, arquivos viram ameaça aos Vorcaro
Relatório da PF mostra promessa de expor dados do iCloud enquanto STF mantém prisões de pai e primo do banqueiro
A retirada do sigilo de novos documentos do caso Master abriu mais uma frente de pressão sobre a família Vorcaro. Relatório da Polícia Federal (PF) anexado à investigação aponta que Joana Mourão, irmã de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, ameaçou expor arquivos que teriam sido encontrados no iCloud do irmão após a morte dele.
Segundo a PF, Joana afirmou ter material suficiente para “acabar com a família inteira”. Em outra mensagem, também mencionada pelos investigadores, ela disse que poderia atingir a “delação do filho, do cunhado e ainda colocar Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, atrás das grades. Atualmente, tanto o primo quanto o pai de Vorcaro já estão presos.
Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, aparece nas investigações como personagem próximo a operadores ligados ao caso. Ele foi preso em março, durante a Operação Compliance Zero, e morreu no mesmo dia, dentro da Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais. Segundo o laudo oficial, cometeu suicídio. Após a morte, a irmã passou a cobrar pessoas ligadas ao grupo e relatou dificuldades financeiras, incluindo contas em atraso e risco de perder a casa.
Ameaças
O relatório registra que Joana teria passado a noite acessando o iCloud do irmão e encontrado “coisa demais”, segundo mensagem atribuída a um familiar. A partir daí, ela passou a pressionar interlocutores ligados aos Vorcaro. Em uma das conversas, reclamou que Henrique Vorcaro não se manifestava financeiramente e disse ter documentos comprometedores.
A PF também identificou tratativas posteriores para tentar conter a crise. Em mensagens analisadas, aparecem conversas sobre reuniões com Joana e familiares dela, além de discussões envolvendo contratos e ativos relacionados ao círculo de Sicário. Para os investigadores, esse conjunto de mensagens ajuda a explicar a tensão interna no grupo em meio ao avanço das apurações.
O caso se soma a outro ponto sensível da investigação: a situação de Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro. A Polícia Federal o aponta como operador financeiro central do esquema. Em pedido de prorrogação da prisão temporária, os investigadores afirmam que ele teria atuado na operacionalização de repasses indevidos, inclusive valores mensais que poderiam chegar a R$ 500 mil, além de operações societárias e patrimoniais usadas, em tese, para ocultar recursos.
Na casa de Felipe, em Nova Lima, Minas Gerais, foram apreendidos celulares, computador, tablet, relógios de luxo e veículos de alto padrão, entre eles uma Lamborghini Urus avaliada em cerca de R$ 2,4 milhões. A PF também destacou que os aparelhos foram enviados à perícia com pedido de urgência.
STF mantém
A divulgação dos novos documentos ocorre no mesmo dia em que a Segunda Turma do STF manteve, por maioria, as prisões de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, e de Felipe Cançado Vorcaro, o primo. As medidas haviam sido determinadas pelo ministro André Mendonça, relator do caso.
Votaram com Mendonça os ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. Gilmar Mendes ficou vencido. No caso de Henrique, ele defendeu a substituição da prisão por domiciliar, com tornozeleira eletrônica e restrição de contato com outros investigados. Para Felipe Cançado, Gilmar votou por medidas cautelares alternativas. Dias Toffoli não participou do julgamento.
Durante a análise, Mendonça afirmou que o caso tem dimensão excepcional e classificou a investigação como “a maior fraude financeira da história” do país. O relator também disse que o esquema teria “contornos de máfia” e infiltração no sistema policial.
O ministro ainda explicou que a transferência de Daniel Vorcaro para a Superintendência da Polícia Federal ocorreu após pedido da PF, diante de preocupação com a segurança do ex-banqueiro depois da morte de “Sicário”.
“Tomei a decisão única e exclusivamente para preservá-lo. Uma decisão dura. Foi por isso que ele foi para lá. Para preservar uma vida humana. Não foi por outra razão”, afirmou Mendonça.