Morre motorista acusado de causar a morte de JK
Parecer da Comissão de Mortos e Desaparecidos o inocenta do acidente, apontando atentado contra ex-presidente
Acusado de ter provocado o acidente que causou em 1976 a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, morreu nesta terça-feira (16), aos 82 anos, o ex-motorista de ônibus Josias Nunes de Oliveira.
De acordo com a versão oficial do acidente, Josias, que conduzia um ônibus da Viação Cometa, teria batido na traseira do Opala que era conduzido pelo motorista de JK, Geraldo Ribeiro. Essa batida teria desgovernado o automóvel, que atravessou o canteiro da Via Dutra, atingindo um caminhão que vinha na direção oposta. Josias sempre negou que tivesse batido no carro do ex-presidente. Cinquenta anos depois, a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que, de fato, não houve a batida. Relatório aprovado pela comissão afirma que a morte de JK e de seu motorista foi consequência de um atentado produzido pela ditadura militar.
Em nota, a Comissão “manifesta seu mais profundo pesar” pelo falecimento. E afirma que preparava um “pedido público de desculpas” ao motorista. “É com os sentimentos de tristeza e frustração que recebemos a notícia de sua partida antes que esse ato de justiça pudesse ser entregue com ele em vida”, diz a nota. “Contudo, a ausência física do senhor Josias não encerra o dever histórico de reparação”.
“A história do Brasil deve, por memória, verdade e justiça, registrar o nome de Josias Nunes de Oliveira como um homen íntegro que foi, na realidade, vítima do silenciamento opressor do Estado e das falas versões arquitetadas para encobrir os crimes da didatura”, conclui a nota.
Veja abaixo a íntegra da nota:
“NOTA DE PESAR: REPARAÇÃO E MEMÓRIA A JOSIAS NUNES DE OLIVEIRA
A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) manifesta seu mais profundo pesar pelo falecimento, ocorrido na data de hoje, do senhor Josias Nunes de Oliveira. Neste momento de dor, expressamos nossa total solidariedade e sinceras condolências aos seus familiares, amigos e a todos que testemunharam sua longa e penosa jornada.
O senhor Josias carrega em sua biografia o peso de uma das maiores e mais cruéis injustiças da história recente do país. Motorista de um ônibus da Viação Cometa, em 1976, ele foi falsa e injustamente apontado como o responsável por uma colisão na traseira do veículo de Juscelino Kubitschek, a qual teria levado ao acidente que vitimou o ex-presidente.
Porém, encontra-se fartamente provado que essa colisão traseira jamais aconteceu e que o acidente que levou à morte de JK decorreu da ação do Estado ditatorial.
Embora Josias tenha sido plenamente absolvido pela Justiça Criminal em 1978, esse fato fundamental permaneceu abafado pelo manto do silêncio, da censura e da produção de versões fraudulentas da época.
Assim, por décadas, Josias Nunes de Oliveira sofreu o impacto devastador de uma calúnia que marcou sua vida pessoal e profissional. A dor de ter sido marcado pelo estigma de uma culpa que nunca foi sua é o reflexo de um período em que a verdade foi intencionalmente distorcida.
Após declarar, em 29 de maio de 2026, que a morte do senhor Juscelino Kubistchek foi não natural, violenta, causada pela perseguição política perpetrada durante a ditadura militar”, esta Comissão preparava as medidas institucionais necessárias para formalizar um pedido público de desculpas direcionado pessoalmente ao senhor Josias.
É com os sentimentos de tristeza e frustração que recebemos a notícia de sua partida antes que esse ato de justiça pudesse ser entregue a ele em vida. Contudo, a ausência física do Senhor Josias não encerra o dever histórico de reparação.
A CEMDP reafirma seu compromisso intransigente com a verdade e garante que o pedido de desculpas será devidamente oficializado e entregue à sua família.
A história do Brasil deve, por memória, verdade e justiça, registrar o nome de Josias Nunes de Oliveira como um homem íntegro que foi, na realidade, vítima do silenciamento opressor do Estado e das falsas versões arquitetadas para encobrir os crimes praticados pela ditadura civil-militar.
Que descanse em paz, finalmente reconhecido e livre do fardo da injustiça.
Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos
16 de junho de 2026”