Plenário do TSE julga suspensão de pesquisa contestada por Flávio

Em decisão monocrática, Nunes Marques aceitou tese de que AtlasIntel induziu negativamente pesquisados

Por Gabriela Gallo

Nunes Marques viu "indícios de comprometimento" da pesquisa AtlasIntel

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, aceitou o pedido do Partido Liberal (PL) e determinou, nesta segunda-feira (8), a suspensão da pesquisa de intenção de votos do Instituto AtlasIntel de maio que registrou uma queda de cinco pontos percentuais do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), após o vazamento de conversas entre o senador e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Como foi uma decisão monocrática, a medida será analisada no plenário do tribunal, com expectativa de ser votada na sessão desta terça-feira (9).

Após a divulgação da pesquisa, a equipe do senador da República e o PL acionaram o TSE alegando que as perguntas elaboradas pelo questionário estariam induzindo os eleitores entrevistados a uma percepção negativa sobre Flávio Bolsonaro, como questionamentos referentes a um “esquema de fraudes financeiras”. Além disso, ao final, os pesquisadores mostravam o áudio da conversa entre Flávio e Vorcaro.

A pesquisa foi a primeira a avaliar o impacto das trocas mensagens e áudios entre Flávio em Vorcaro no qual o senador cobrava do banqueiro dinheiro que este havia prometido para financiar o filme autobiográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), “Dark Horse”.

“Comprometimento”

Na decisão preliminar de Nunes Marques, o magistrado avaliou que existem “elementos minimamente consistentes” que indicam possível comprometimento da neutralidade metodológica da pesquisa. “A controvérsia suscitada nos autos não se limita, portanto, à mera discordância quanto às escolhas metodológicas da representada, mas envolve alegação objetiva de possível utilização do questionário como mecanismo de indução do entrevistado”, defendeu o magistrado.

Em nota divulgada para a imprensa, a AtlasIntel informou que respeitará a decisão do presidente do TSE, mas negou qualquer viés político partidário na elaboração das perguntas e da metodologia. O instituto ainda reiterou que os áudios entre Flávio e Vorcaro somente foram apresentados aos entrevistados após os eleitores responderem aos questionamentos.

“Após o encerramento definitivo do questionário – sem qualquer possibilidade de retornar às perguntas anteriores ou alterar respostas já registradas – os participantes eram redirecionados para uma página completamente separada do questionário, onde eram convidados a registrar suas reações enquanto ouviam o áudio por meio da ferramenta Atlas VRC”, informou a AtlasIntel.

Desconfiança

Ao Correio da Manhã, o professor de políticas públicas do Ibmec Brasília Jackson De Toni avaliou como negativa a decisão do ministro do TSE e considera que ela “aprofunda a crise de confiança nas instituições”.

“Como Nunes Marques foi indicado ao STF [Supremo Tribunal Federal] por Jair Bolsonaro — que já declarou publicamente ter ‘dois nossos’ na Corte —, sua atuação monocrática para barrar um levantamento desfavorável a um aliado político reforça a percepção de partidarismo. Esse cenário agrava a já fragilizada credibilidade do Judiciário, considerando que 60% dos brasileiros não confiam no Supremo Tribunal Federal e têm como principal crítica justamente a falta de imparcialidade entre rivais políticos”, ele ressaltou para a reportagem.

O professor ainda ressaltou que, para além do desgaste institucional, “a medida gera um grave risco de judicialização da informação e de censura prévia, limitando o acesso dos eleitores a dados relevantes para o livre debate democrático”.

“A atitude do ministro também entra em contradição com o seu próprio discurso de posse no TSE, ocasião em que prometeu atuar com moderação e resguardar a liberdade de expressão. Ao censurar um instituto que defende o rigor técnico e a isenção de sua metodologia, a decisão abre margem para questionamentos sobre a lisura do pleito, alimentando a narrativa de que certos candidatos tentam vencer no ‘tapetão’ judicial por não aceitarem o desgaste eleitoral refletido nas pesquisas”, ponderou Jackson.