Trump ameaça novo tarifaço sobre o Brasil

No mesmo dia, presidente dos EUA elogia Flávio, trazendo a nova polêmica para o campo eleitoral

Por Beatriz Matos

Trump divulgou foto com Flávio e Eduardo na Casa Branca

A nova ameaça de tarifas dos Estados Unidos (EUA) contra produtos brasileiros provocou mais do que preocupação econômica. O episódio rapidamente se transformou em combustível para a disputa política de 2026, envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e até o próprio presidente americano Donald Trump.

O momento chamou atenção por uma coincidência política difícil de ignorar. Na mesma data em que o governo americano divulgou a conclusão de uma investigação comercial contra o Brasil e abriu caminho para uma possível sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, Trump publicou em sua rede social uma mensagem elogiando Flávio Bolsonaro, após o encontro que os dois tiveram na Casa Branca no dia 26 de maio. Até então, Trump nada dissera sobre o encontro.

"Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil!", escreveu o republicano.

A publicação ocorreu em um contexto delicado. A investigação iniciada pelos Estados Unidos em julho do ano passado apontou preocupações envolvendo comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal. Embora a sobretaxa ainda não esteja definida, o relatório abriu uma nova fase de consultas públicas e negociações que devem se estender até julho. Mas a ameaça feita é de uma nova sobretaxação dos produtos brasileiros em 25%.

Enquanto o governo brasileiro tenta evitar a aplicação das tarifas, o episódio passou a ser explorado politicamente por todos os lados.

Timing

A principal questão que surgiu em Brasília foi o efeito político do encontro entre Flávio e Trump.

Para o professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília Ricardo Caichilo, a aproximação com o presidente americano produz efeitos contraditórios para o senador.

"A proximidade com Trump impacta Flávio Bolsonaro de duas formas: ao mesmo tempo que reforça sua liderança na direita e seu papel de herdeiro do bolsonarismo, o expõe à acusação de conivência com um aliado que prejudica a economia brasileira com a aplicação de tarifas."

A avaliação ajuda a explicar por que o encontro passou a ser tratado de formas completamente diferentes por governo e oposição.

Para aliados de Flávio, a imagem ao lado de Trump reforça sua condição de principal representante da direita na corrida presidencial. Já para o Palácio do Planalto, o episódio oferece a oportunidade de associar o senador a uma medida que pode prejudicar exportações brasileiras e atingir setores produtivos.

Não por acaso, Lula elevou o tom das críticas ao comentar o assunto durante agenda em Catalão (GO). "Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser piores do que ele. E são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. É isso que vocês têm que dizer alto e bom som: são traidores."

Nos bastidores do governo, integrantes da equipe presidencial avaliam que o episódio pode fortalecer a narrativa de defesa da soberania nacional, especialmente porque o relatório americano também cita o Pix e questões ligadas à economia digital.

Já Flávio buscou se antecipar às críticas. Em vídeo divulgado nas redes sociais, afirmou que pediu diretamente a Trump que não adotasse medidas contra o Brasil. "Sempre defendi as empresas brasileiras e, em qualquer oportunidade que tiver, vou continuar a defender nosso setor produtivo. Pedi expressamente ao presidente Trump para não taxar nossas empresas. Tarifa não é solução."

Horas depois, divulgou uma carta enviada ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, reiterando o pedido para que Washington não imponha novas sanções comerciais ao país. No documento, Flávio argumenta que o Brasil atravessa um processo de deterioração econômica e fiscal e que eventuais tarifas causariam danos à população brasileira.

Narrativas

O professor Elton Gomes, do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e membro do Instituto de Pesquisas Estratégicas em Relações Internacionais e Diplomacia (Iperid), avalia que o episódio não pode ser interpretado apenas como uma disputa comercial.

Segundo ele, há interesses políticos, econômicos e geopolíticos simultaneamente em jogo. "Quando nós analisamos essa possibilidade de sanções comerciais dos Estados Unidos contra o Brasil, fica claro que essa questão não pode ser vista de forma isolada."

Para o pesquisador, diferentes grupos dentro da estrutura política americana atuam com objetivos distintos. Há setores interessados em aprofundar a cooperação econômica com o Brasil, grupos alinhados ao movimento político liderado por Trump e ainda a burocracia técnica responsável por avaliações comerciais e regulatórias.

Essa leitura ajuda a explicar por que o governo americano mantém diálogo com Brasília ao mesmo tempo em que avança em investigações comerciais.

No mês passado, Lula e Trump passaram mais de três horas reunidos na Casa Branca. Após o encontro, o presidente brasileiro afirmou que os dois governos criariam um grupo de trabalho para buscar uma solução negociada.

O prazo para apresentação dessa proposta termina nos próximos dias, enquanto a decisão final americana sobre eventuais medidas está prevista para ocorrer até 15 de julho.

Para Elton Gomes, o cenário ainda está em aberto. "A investigação conduzida pelos órgãos americanos possui uma natureza predominantemente técnica e institucional."
Ao mesmo tempo, ele observa que o impacto político pode ser relevante caso as tarifas avancem. "Caso as tarifas avancem, o governo Lula pode explorar o tema sob a ótica da soberania nacional, transformando a pressão externa em um ativo político para as eleições de 2026."

Repercussão

O tema também já movimenta outros pré-candidatos ao Planalto. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD-GO) responsabilizou a política externa do governo federal pela deterioração das relações com Washington.

Durante entrevista coletiva em uma exposição de produtores de leite em Belo Horizonte, afirmou: "O Brasil governado pelo PT não tem mais uma política do Itamaraty que seja de Estado, ele tem uma política de governo."

Na mesma linha, o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), classificou a possível taxação como uma ameaça ao setor produtivo brasileiro. "Isso não aconteceu por acaso. O governo Lula falhou na diplomacia e não conseguiu defender os interesses do Brasil."

Nenhum dos dois atribuiu responsabilidade a Flávio Bolsonaro pelo episódio. A estratégia revela um cálculo político. Embora a oposição enxergue espaço para desgastar Lula pela condução da política externa, também evita transformar o senador em alvo direto num momento em que a direita busca preservar a unidade para 2026.

Ainda assim, a associação entre Trump e Flávio pode se tornar um desafio para o senador caso as tarifas avancem. O especialista Ricardo Caichilo resume esse risco. "Se as tarifas avançarem, o custo político primário é do governo Lula, mas Flávio paga caro pela superexposição nos Estados Unidos. Aparecer sorridente ao lado de Trump às vésperas de um anúncio prejudicial ao empresariado brasileiro o coloca na defensiva, reforçando a narrativa de que sua 'diplomacia paralela' gerou retaliação, não proteção."

Por enquanto, a disputa permanece aberta. O governo tenta evitar o tarifaço por meio das negociações conduzidas pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB-SP). A oposição trabalha para atribuir a crise à política externa de Lula.