Caiado e Zema ensaiam união política
Estacionados nas pesquisas, candidatos do PSD e do Novo têm reunião para discutir aliança
A direita brasileira começou a assistir, nos bastidores, a um novo movimento de reorganização para a disputa presidencial de 2026. Depois de um encontro em um evento realizado nesta semana em São Paulo, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, candidato do PSD à Presidência da República, e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema,, presidenciável pelo Novo, passaram a sinalizar de forma mais aberta uma aproximação política que pode ganhar novos contornos nas próximas semanas.
O próximo capítulo dessa articulação já tem data para acontecer: Caiado confirmou ao Correio da Manhã que terá uma nova reunião com Zema em dez dias.
A movimentação acontece em meio à tentativa de setores da centro-direita de ocupar um espaço político que enxergam hoje em disputa dentro do eleitorado conservador. Nos bastidores, aliados dos dois políticos admitem que já existe diálogo sobre uma eventual composição nacional, embora ainda não haja definição sobre quem poderia encabeçar uma futura chapa presidencial.
Questionado pelo Correio da Manhã sobre como vê essa reorganização da direita e se a aproximação com Zema já representa um desenho eleitoral para 2026, Caiado respondeu: “Vamos chegar fortes e vencer o PT”.
Ao ser perguntado sobre a possibilidade de Zema ser vice em uma eventual chapa, o governador evitou antecipar qualquer acordo. “Não gosto de fazer esse tipo de afirmação porque o assunto não foi discutido”, afirmou.
Reorganização
O movimento ocorre em um momento de pressão dentro do campo conservador. Integrantes da direita acompanham os efeitos políticos da crise envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL) e os desdobramentos do caso Master para entender se haverá impacto eleitoral mais profundo sobre o bolsonarismo.
A avaliação entre setores políticos e empresariais é de que parte do eleitorado conservador passou a demonstrar desgaste com a polarização tradicional entre PT e bolsonarismo, abrindo espaço para nomes que tentem ocupar um campo mais moderado da direita.
A pesquisa Datafolha mais recente mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 40% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro aparece com 31%, enquanto Caiado registra 4% e Zema, 3%.
Estratégia
Para o professor de ciência política do Ibmec Brasília, Arthur Wittenberg, a aproximação entre Caiado e Zema reflete justamente a tentativa de construção de uma direita mais institucional e menos associada ao estilo político do bolsonarismo.
“A aproximação entre Caiado e Zema ocorre porque ambos tentam ocupar um espaço de direita liberal e institucional, voltado para gestão, responsabilidade fiscal e discurso de eficiência administrativa, mas sem reproduzir integralmente o estilo mais confrontacional do bolsonarismo”, afirmou.
Segundo ele, existe hoje uma busca dentro do campo conservador por lideranças que consigam dialogar simultaneamente com setores empresariais, com o centro político e também com eleitores de direita que demonstram cansaço da polarização.
Ao mesmo tempo, o especialista pondera que o bolsonarismo ainda mantém forte capacidade de mobilização nacional, o que dificulta o avanço de candidaturas paralelas.
“O principal deles é que o bolsonarismo continua sendo a força mais organizada e mobilizadora da direita brasileira, o que dificulta a consolidação de projetos paralelos”, explicou Wittenberg.
Na avaliação do professor, uma eventual chapa entre Caiado e Zema dependerá diretamente da capacidade de desgaste eleitoral do núcleo bolsonarista nos próximos meses e da possibilidade de fragmentação do eleitorado conservador.
“Hoje, porém, essa alternativa ainda está mais em fase de construção política do que de consolidação eleitoral”, concluiu.