BTG-Nexus mostra avanço mais tímido de Lula

Segundo pesquisa, Lula venceria no primeiro e segundo turnos, mas vantagem ficou menor que na Datafolha e Atlas Intel

Por Beatriz Cicci

A pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira apontou o estrago que o caso Master provocou na candidatura de Flávio Bolsonaro. O presidente Lula abriu sobre ele nove pontos de vantagem no primeiro turno. A pesquisa aponta outros efeitos: Lula passou a atrair mais os eleitores de centro, que serão definidores da eleição deste ano

Divulgada nesta segunda-feira (25), a Pesquisa BTG-Nexus registra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganharia do senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro e segundo turnos das eleições de 2026. Embora em percentuais menores do que os revelados na Pesquisa Datafolha na sexta-feira (22) e na AtlasIntel do dia 19, a pesquisa mostra mudanças nas intenções de voto e uma possível tendência ao apoio de Lula.

Lula foi o único candidato a obter melhora nas simulações de segundo turno. Mesmo assim, dentro da margem de erro. No embate contra Flávio Bolsonaro, Lula tem 47% e Flávio, 43%. Lula teve, então, uma subida de um ponto percentual, dentro, portanto, da margem de erro. Já Flávio caiu dois pontos, também dentro da margem de erro: tinha antes 45%, e agora aparece com 43%.

Lula tem 49% contra o candidato do partido Novo, Romeu Zema, com 38%. E 46% contra o candidato do PSD, Ronaldo Caiado, com 40%.

A estabilidade fica mais nítida na simulação de primeiro turno, com voto estimulado. No caso, tanto Lula quanto Flávio tiveram uma queda mínima de um ponto percentual. Lula agora conta com a intenção de voto de 40% dos eleitores e, Flávio, 35%, o que, porém, representa uma queda de três pontos desde o final de março.

Copa do Mundo

André César, especialista em análise política, disse ao Correio da Manhã que, em véspera de Copa do Mundo e ao se deparar com preocupações mais urgentes, o “eleitor ainda não se atentou ao fato de que temos eleições em outubro”.

César explica que as alterações vistas na Pesquisa BTG-Nexus são marginais, embora possam sinalizar uma tendência que ainda não está confirmada. Essa mudança inicial poderia indicar “um solavanco para cima do Lula e de Flávio para baixo”. André Cesar reconhece que, diante da repercussão do caso Master, a situação do senador “poderia ser bem pior”.

Polarização

O baixo efeito do caso Flávio/Master pode ter explicação na alta polarização. Segundo a pesquisa, 36% se posicionam estritamente “Anti-Lula” e 33% “Anti-Bolsonaro”, com 17% afirmando “não concordar nem discordar” de ambos os presidenciáveis. Em relação a potencial de voto e rejeição, 50% dos eleitores afirmam que “não votariam de jeito nenhum” em Flávio Bolsonaro, e 47% no Lula. Porém, 37% indicam Lula como o único candidato no qual votariam e 26% afirmam o mesmo sobre o candidato bolsonarista.

Ao relatar as motivações por trás de seus votos, 80% dos eleitores de Lula acreditam que ele seja o melhor candidato, enquanto outros 14% só votariam no atual presidente para derrotar Flávio Bolsonaro. Entre os eleitores de Flávio, o cenário é parecido – com 65% apostando em sua adequação ao cargo, e 32% votando para impedir que Lula continue seu mandato.

De acordo com o voto espontâneo, 36% declaram sua intenção de voto no Lula no primeiro turno, apresentando um crescimento de 4 pontos percentuais desde 30 de março. Em contrapartida, Flávio Bolsonaro permaneceu com 26% das intenções de voto, com outros 26% em dúvida em relação à sua preferência entre os pré-candidatos.

Diferentemente das eleições de 2022, nas quais as abstenções corresponderam a 20% dos eleitores, a participação eleitoral esperada para esse ano é surpreendente se for confirmada com o que diz a pesquisa: 87% dos eleitores confirmando o seu comparecimento às urnas, 8% indicando o mesmo intuito e somente 4% se abstendo.

A certeza na decisão de voto no primeiro turno, similarmente, sofreu mudanças e agora aponta para um cenário mais favorável para Lula – com um aumento de 6 pontos percentuais, de 75% para 81%, desde o fim de março. Flávio, por outro lado, perdeu 3 pontos, com 71% dos seus eleitores demonstrando certeza nas suas intenções de voto. Adicionalmente, a certeza em torno do apoio a Ronaldo Caiado teve flutuações significativas nos últimos dois meses. Inicialmente estimado em 28% de certeza, esse percentual subiu drasticamente entre março e abril para 54%, para cair novamente para 39% em maio.

Troca de voto

Nas preferências eleitorais do segundo turno, a maioria dos eleitores de Augusto Cury e Joaquim Barbosa atestam que votariam no Lula no segundo turno, enquanto 45% dos de Cabo Daciolo indicam que votariam nulo e os de Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema mudariam seu voto para Flávio Bolsonaro.

As informações divulgadas recentemente sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro não parecem ter causado um impacto significativo nas intenções de voto, embora seja cedo para determinar quais serão as repercussões concretas desse desenvolvimento.

O governo Lula lida agora com uma alta desaprovação (48%), menor por 3 pontos porcentuais desde o dia 30 de março, mas ainda maior que a sua aprovação, que agora se encontra em 47%. Além disso, a pesquisa indica que os brasileiros reconhecem a corrupção e a saúde pública como os dois maiores problemas no Brasil atualmente – sendo assim, dentre aqueles que veem a corrupção como o principal desafio no cenário político, 40% acham que o Flávio Bolsonaro deveria assumir a presidência em outubro.

De acordo com a pesquisa, 79% dos eleitores têm conhecimento do áudio trocado entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro sobre um pagamento de R$134 milhões destinado ao financiamento do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, Dark Horse. Similarmente, 73% dos eleitores afirmam saber sobre a visita de Flávio a Vorcaro após sua primeira prisão pela Polícia Federal no final de 2025. Apesar da divulgação dessas notícias, houve pouca mudança nas intenções eleitorais, exceto por um aumento na porcentagem de eleitores que planejam votar em branco (em 14%).

Danos

César avalia, a partir da pesquisa, que os danos para Flávio podem ter sido contidos e que o efeito paralelo da ascensão de Lula seria, como foi visto, a redução da avaliação negativa de seu governo. Entretanto, tal tendência teria que ser confirmada em uma próxima avaliação.

O cientista político reitera que o momento mais crítico para Flávio Bolsonaro já passou, explicando que o pré-candidato sofreu uma deterioração de sua imagem devido a falta de coerência entre discursos que tentavam explicar seu envolvimento com Vorcaro. No dia 14 de maio, por exemplo, o deputado federal Mário Frias contradisse Flávio Bolsonaro ao falar que não havia “um único centavo” de Vorcaro em Dark Horse.

“A pesquisa de hoje mostra que Flávio tem sobrevida, mas não sabemos se ele vai conseguir manter isso. Afinal, uma coisa é participar da campanha, outra é ganhar”. César definiu a viagem do pré-candidato bolsonarista aos Estados Unidos nesta manhã como ‘uma faca de dois legumes’, capaz de recapturar os seus eleitores desiludidos pelo seu envolvimento com Vorcaro ou perdê-los de vez – de qualquer forma, é um risco calculado.

Lula, por outro lado, com o seu ‘pacote de bondades’ e novas medidas para aliviar a população endividada, está caminhando para ganhos políticos relevantes. Tanto o avanço do projeto de lei que acabaria com a escala 6x1 quanto o estabelencimento do programa Novo Desenrola contribuiria para a campanha de Lula e, de acordo com César, serviria como uma maneira de “avançar a cavalaria em cima de um adversário que já está fraco”.

Nos próximos meses, César identifica três momentos de mudança política e na intenção de voto: de agora até a Copa, dia 20 de junho – o início das convenções partidárias e a data na qual as alianças políticas devem ‘se fechar’ – e o período após a Copa, no qual o eleitor vai começar a formar e ‘calcificar’ a sua posição de fato. Porém, no momento, ele afirma que “as coisas estão dançando de lado”, e que nenhuma previsão eleitoral está escrita em pedra.