Vaias, aplausos e áudios: Flávio tenta conter crise do caso Master

Senador teve teste de popularidade na Marcha dos Prefeitos após áudios vazados e tentou blindar pré-candidatura em reunião com cúpula do PL

Por Beatriz Matos

Flávio foi recebido com aplausos, mas também com vaias e gritos de "ladrão"

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) viveu nesta terça-feira (19) um dos dias mais delicados desde que passou a ser tratado como principal nome do bolsonarismo para a disputa presidencial de 2026.

Entre uma reunião fechada com a cúpula do Partido Liberal (PL), na sede da legenda, e a participação na Marcha dos Prefeitos, em Brasília, o parlamentar precisou administrar o impacto político dos áudios vazados que colocaram a família Bolsonaro no centro do escândalo envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro.

O dia acabou funcionando como uma espécie de teste de sobrevivência política. Na Marcha dos Prefeitos, promovida pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), Flávio foi recebido com aplausos, mas também enfrentou vaias e gritos de “ladrão” em alguns momentos antes do discurso. O evento é visto nos bastidores políticos como um termômetro importante para pré-candidatos ao Palácio do Planalto, especialmente pela forte presença de prefeitos e lideranças municipais de todo o país.

Pela manhã, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) representou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que não compareceu ao encontro por causa de agendas em São Paulo e também foi recebido pelos prefeitos com vaias e aplausos. À tarde, foi a vez de Flávio ocupar o palco principal.

A participação aconteceu horas depois de o senador reunir deputados e senadores do PL para tentar conter o desgaste provocado pelos novos vazamentos envolvendo as negociações do filme Dark Horse, produção sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Crise

A reunião na sede do partido foi convocada em meio à repercussão de áudios divulgados pelo portal Intercept Brasil mostrando Flávio Bolsonaro cobrando o cumprimento de um acordo milionário ligado ao financiamento do filme. O senador negociava um repasse de cerca de R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro para viabilizar a produção cinematográfica.

O episódio abriu uma crise dentro do próprio entorno bolsonarista porque Flávio inicialmente negou qualquer pedido de dinheiro ao banqueiro. Depois, mudou a versão e passou a admitir a existência de um contrato de confidencialidade envolvendo o investimento.

Na tentativa de reduzir os danos políticos, o senador afirmou à bancada do PL que toda a relação com Vorcaro ocorreu exclusivamente por causa do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Qualquer relação minha com o Vorcaro foi única e exclusivamente por causa do filme do meu pai”, declarou.

Visita

O problema para Flávio é que ele se viu obrigado a acrescentar uma nova explicação ao que argumentava sobre o áudio. Surgiram informações de que ele foi pessoalmente à casa de Vorcaro, quando ele já estava em prisão domiciliar. E Flávio viu-se obrigado a confirmar a visita. Segundo o senador, a conversa aconteceu quando Vorcaro já utilizava tornozeleira eletrônica e cumpria prisão domiciliar em São Paulo.

“Eu fui sim ao encontro dele para botar um ponto final nessa história”, afirmou. O senador disse ainda que só compreendeu a gravidade da situação após a prisão do empresário.
“Se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco”, declarou.

Nos bastidores do partido, a estratégia passou a ser construir uma frente pública de defesa da pré-candidatura de Flávio e reforçar o discurso pela instalação da CPMI do Banco Master.

Durante a coletiva, o senador também tentou inverter o foco político do caso ao citar uma reunião revelada recentemente envolvendo Lula, o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, e Daniel Vorcaro. “É por essa razão que a gente tem insistido tanto que é mais urgente do que nunca a CPMI do Banco Master”, afirmou.

Blindagem

O principal movimento do partido ao longo do dia foi demonstrar unidade política em torno do senador. Coube ao líder da oposição na Câmara, deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), fazer a defesa mais enfática de Flávio após a reunião.

Segundo o parlamentar, os esclarecimentos apresentados pelo senador convenceram a bancada. “Ficou esclarecido, página virada essa questão do áudio”, afirmou.

Cabo Gilberto repetiu diversas vezes que o partido não vê contradições na versão apresentada por Flávio. “Tudo que está relacionado à questão do banqueiro foi para o financiamento do filme”, disse.

Ao ser questionado sobre a mudança de versão do senador, o deputado afirmou que Vorcaro, à época, “frequentava todas as rodas” e não levantava suspeitas. “Ele frequentava Suprema Corte Federal, Lula, bancou filme de Lula, bancou filme de Temer. Então, ele frequentava todos os meios ideológicos e partidários”, declarou.

Mesmo assim, o clima dentro do partido está longe de ser totalmente confortável. Integrantes da legenda admitem reservadamente que o vazamento dos áudios atingiu um momento delicado da pré-campanha de Flávio Bolsonaro, justamente quando o senador começava a ampliar agendas nacionais e testar o discurso presidencial.

A Marcha dos Prefeitos acabou servindo justamente para medir essa temperatura.

Pressão

No palco do evento, Flávio tentou reforçar o perfil de pré-candidato ao apresentar propostas voltadas aos municípios e críticas ao governo Lula. “O Nordeste não é problema, o Nordeste é solução”, afirmou, dirigindo-se à região onde Lula tem mais apoio.

Também defendeu uma nova legislação trabalhista para substituir o atual modelo da escala 6x1, criticou o aumento da carga tributária e prometeu criar um Ministério da Segurança Pública com maior participação das guardas municipais.

Nova fase

Enquanto isso, a Polícia Federal também avançou em outra frente da investigação. A corporação deflagrou a sétima fase da Operação Compliance Zero para apurar um suposto vazamento de informações sigilosas da investigação.

Por determinação do ministro André Mendonça, do STF, foram cumpridos mandados de busca e apreensão e determinada a suspensão de um policial federal suspeito de repassar diálogos confidenciais a jornalistas.

O novo capítulo da crise ganhou ainda mais força após o Intercept divulgar outro áudio envolvendo o deputado federal Mario Frias (PL-SP). Na gravação, enviada a Vorcaro em dezembro de 2024, o parlamentar agradece o apoio financeiro ao filme.

“Só te agradecer, meu irmão... Vamos mexer com o coração de muita gente. Vai ser muito importante para o nosso país”, diz Frias no áudio.

A revelação aumentou a pressão porque, dias antes, o deputado havia afirmado publicamente que Vorcaro não teria colocado “um único centavo” no longa-metragem.