Fim da jornada 6x1 e moradia: mudanças de olho na classe média

CCJ da Câmara aprova PEC sobre regime de trabalho no mesmo dia em que governo amplia Minha Casa, Minha Vida

Por Gabriela Gallo

Aprovação da admissibilidade foi unânime na CCJ

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade, nesta quarta-feira (22), a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que determina o fim da escala de trabalho 6X1, em que o empregado trabalha seis dias da semana e descansa um dia.

Com isso, a CCJ entendeu que o relatório do deputado federal Paulo Azi (União Brasil-BA) é constitucional e possível de prosseguimento. Agora, será criada uma comissão especial para debater o tema. Segundo o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a comissão especial será criada “o mais rápido possível”.

A redução da jornada de trabalho é um dos temas mais cobiçados pelo governo federal, para dar musculatura à tentativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de conseguir sua reeleição.

É mais um passo diante do mesmo objetivo. O governo vem perdendo apoio, segundo as pesquisas, especialmente na classe média, inclusive na classe média baixa. Muitos são trabalhadores, do setor de serviços e outros, que hoje trabalham na escala 6x1 e seriam beneficiados pela mudança.

Na mesma linha, ainda nesta quarta-feira começaram a valer as novas regras para financiamento de imóveis do programa social Minha Casa, Minha Vida. A mudança ampliou o teto dos limites de renda familiar para participar do programa para até R$ 13 mil, além de ampliar o valor dos imóveis para até R$ 600 mil. A ampliação da faixa de renda passa a atingir e beneficiar também a classe média.

Endividamento

Um dos principais motivos para a rejeição governo ocorrer é a alta taxa de endividamento da população brasileira. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgada em 7 de abril, o percentual de famílias endividadas chegou a 80,4% em março deste ano.

Ao Correio da Manhã, a consultora de Análise Política na BMJ Consultores Associados Raquel Alves avaliou que as pesquisas revelam um “mau humor” da classe média com o contexto atual diário e também “uma percepção negativa para o futuro”.

“Ou seja, a classe média está desanimada hoje porque está atolada em dívidas, e preocupada com uma futura piora de suas condições de vida, porque mesmo que o endividamento atual seja mitigado, os gastos com o custo de vida (educação, saúde, transporte e moradia) persistirão. Ampliar os limites do Minha Casa, Minha Vida atende a uma das demandas da classe média, mas é uma medida pontual”, ela afirmou.

“O governo aposta que somada a outras medidas, como a isenção do Imposto de Renda para contribuintes com renda até R$ 5mil e o prometido pacote de renegociação de dívidas que está para ser lançado, o humor imediato e as expectativas tendem a melhorar. Mas ações estruturantes seriam mais efetivas para mudar essa perspectiva futura, algo central em um ano eleitoral, quando o eleitor vai às urnas para decidir se quer mudança ou permanência”, completou a analista política.

Questionada pela reportagem, Raquel detalhou que o conceito de “classe média” é amplo e engloba “mais da metade da população”. “Estamos falando de brasileiros com rendas que variam de R$ 3,5 mil a R$ 25 mil mensais, divididos internamente em classe média baixa, média, e média alta”, disse.

A reportagem ainda conversou com o professor de finanças do Ibmec Brasília Marcos Melo. Ele reiterou que as mudanças no programa social, que agora é voltado para a classe média, “podem trazer alguma melhoria na imagem entre os eleitores, mas a percepção de piora da condição econômica é significativa”.

“O governo precisaria ter criado condições para redução da taxa básica de juros, a Selic, que afeta direta e fortemente o alto nível atual de endividamento das famílias, comprime investimentos produtivos, gera deterioração da qualidade de vida, entre outros aspectos”, pontuou o professor de finanças.