Fim da jornada 6x1 e moradia: mudanças de olho na classe média
CCJ da Câmara aprova PEC sobre regime de trabalho no mesmo dia em que governo amplia Minha Casa, Minha Vida
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade, nesta quarta-feira (22), a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que determina o fim da escala de trabalho 6X1, em que o empregado trabalha seis dias da semana e descansa um dia.
Com isso, a CCJ entendeu que o relatório do deputado federal Paulo Azi (União Brasil-BA) é constitucional e possível de prosseguimento. Agora, será criada uma comissão especial para debater o tema. Segundo o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a comissão especial será criada “o mais rápido possível”.
A redução da jornada de trabalho é um dos temas mais cobiçados pelo governo federal, para dar musculatura à tentativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de conseguir sua reeleição.
É mais um passo diante do mesmo objetivo. O governo vem perdendo apoio, segundo as pesquisas, especialmente na classe média, inclusive na classe média baixa. Muitos são trabalhadores, do setor de serviços e outros, que hoje trabalham na escala 6x1 e seriam beneficiados pela mudança.
Na mesma linha, ainda nesta quarta-feira começaram a valer as novas regras para financiamento de imóveis do programa social Minha Casa, Minha Vida. A mudança ampliou o teto dos limites de renda familiar para participar do programa para até R$ 13 mil, além de ampliar o valor dos imóveis para até R$ 600 mil. A ampliação da faixa de renda passa a atingir e beneficiar também a classe média.
Endividamento
Um dos principais motivos para a rejeição governo ocorrer é a alta taxa de endividamento da população brasileira. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgada em 7 de abril, o percentual de famílias endividadas chegou a 80,4% em março deste ano.
Ao Correio da Manhã, a consultora de Análise Política na BMJ Consultores Associados Raquel Alves avaliou que as pesquisas revelam um “mau humor” da classe média com o contexto atual diário e também “uma percepção negativa para o futuro”.
“Ou seja, a classe média está desanimada hoje porque está atolada em dívidas, e preocupada com uma futura piora de suas condições de vida, porque mesmo que o endividamento atual seja mitigado, os gastos com o custo de vida (educação, saúde, transporte e moradia) persistirão. Ampliar os limites do Minha Casa, Minha Vida atende a uma das demandas da classe média, mas é uma medida pontual”, ela afirmou.
“O governo aposta que somada a outras medidas, como a isenção do Imposto de Renda para contribuintes com renda até R$ 5mil e o prometido pacote de renegociação de dívidas que está para ser lançado, o humor imediato e as expectativas tendem a melhorar. Mas ações estruturantes seriam mais efetivas para mudar essa perspectiva futura, algo central em um ano eleitoral, quando o eleitor vai às urnas para decidir se quer mudança ou permanência”, completou a analista política.
Questionada pela reportagem, Raquel detalhou que o conceito de “classe média” é amplo e engloba “mais da metade da população”. “Estamos falando de brasileiros com rendas que variam de R$ 3,5 mil a R$ 25 mil mensais, divididos internamente em classe média baixa, média, e média alta”, disse.
A reportagem ainda conversou com o professor de finanças do Ibmec Brasília Marcos Melo. Ele reiterou que as mudanças no programa social, que agora é voltado para a classe média, “podem trazer alguma melhoria na imagem entre os eleitores, mas a percepção de piora da condição econômica é significativa”.
“O governo precisaria ter criado condições para redução da taxa básica de juros, a Selic, que afeta direta e fortemente o alto nível atual de endividamento das famílias, comprime investimentos produtivos, gera deterioração da qualidade de vida, entre outros aspectos”, pontuou o professor de finanças.