Versos de curvas e concreto: poesias e canções que celebram Brasília

Capital que completa 66 anos sempre inspirou artistas. Talvez porque tenha, como disse Niemeyer, as curvas de uma mulher

Por Rudolfo Lago

Vinicius e Tom e a "água de beber, camará" de Brasília

“No princípio, era o ermo”. Assim começa a Sinfonia da Alvorada, composta por Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim, por encomenda do presidente Juscelino Kubistchek para celebrar a inauguração de Brasília, no dia 21 de abril de 1960.

No começo da bela sinfonia, executada por uma orquestra no dia da inauguração, Vinicius de Moraes e Tom Jobim destacam a imensidão vazia do Planalto Central que seria palco da grande aventura da construção da capital. “Eram antigas solidões sem mágoa/O altiplano, o infinito descampado”.

A segunda parte da sinfonia começa a contar a aventura. Com a chegada dos destemidos candangos para a aventura da construção. “Sim, era o Homem”, contam os versos de Vinicius. “Era finalmente, e definitivamente o Homem”. Que viera para ficar, pontua o Poetinha. “Tinha nos olhos a força de um propósito: permanecer, vencer as solidões”.

Na quarta parte, Vinicius descreve números impressionantes da aventura. “Foi necessário 1 milhão de metros cúbicos de concreto/E foram necessárias 100 mil toneladas de ferro redondo/E foram necessários milhares e milhares de sacos de cimento/E 500 mil metros cúbicos de areia, e 2 mil quilômetros de fios”.

A Sinfonia da Alvorada é a criação musical diretamente ligada à construção de Brasília. Mas não é a única a evocar essa aventura. O imponente avião que Lúcio Costa e Oscar Niemeyer pousaram no Planalto Central do Brasil inspirou diversos artistas e outras canções. Naqueles dias mesmo, hospedados no Catetinho enquanto compunham a Sinfonia, Vinicius e Tom Jobim compuseram outro clássico da música brasileira. Passeando pela mata próxima, ouviram um barulho de água correndo. Perguntaram a um candango o que era, e ele respondeu: “É água de beber, camará”.

“Céu de Brasília, traço do arquiteto”, evoca Djavan em “Linha do Equador”, ao comparar coisas bonitas à musa da sua canção. “Da próxima vez que eu for a Brasília, eu trago uma flor do Cerrado pra você”, já dizia antes Caetano Veloso em “Flor do Cerrado”, lindamente cantada por Gal Costa.

Naturalmente, Brasília é forte tema de alguns dos seus artistas locais. Afinal, “um telefone é muito pouco pra quem ama como louco e mora no Plano Piloto, se a menina que o carinha ama tá pra lá do Gama”. Assim canta Renato Matos.

Quantos pedestres de Brasília já não terão rezado para “Nossa Senhora do Cerrado”, como fizeram Nonato Veras e Nicholas Behr? “Minha Nossa Senhora do Cerrado, padroeira dos pedestres que atravessam o Eixão/Fazei com que eu chegue são e salvo à casa da Noélia”.

Talvez haja no grande número de canções que Brasília inspirou e mesma razão pela qual mulheres tanto inspiram músicas ao longo do tempo. Brasília é mulher. Não somente porque a palavra que a designa parece mais feminina. Mas pelo que disse Niemeyer a respeito dos seus traços iluminados. "Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher”.

As curvas da cintura e dos seios da mulher Brasília seguem firmes, rijas, aos seus 66 anos. Prontas para inspirar novos versos, novas melodias, novas paixões.