CCJ adia votação da PEC do fim da escala 6X1

Relator apresenta parecer favorável, mas oposição pede vista

Por Gabriela Gallo

Paulo Azi deu parecer favorável ao fim da escala 6x1

Nesta semana o governo federal teve vitórias e derrotas no Congresso Nacional, especialmente nesta quarta-feira (15). Após uma longa sessão no plenário da Câmara dos Deputados para definir o representante parlamentar que será o novo ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), o Senado Federal aprovou o nome do deputado federal Odair Cunha (PT-MG) para assumir o TCU, vitória do poder Executivo. Contudo, do outro lado do Congresso, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara adiou a votação da proposta que encerra a jornada de trabalho de escala 6X1, na qual o empregado trabalha seis dias da semana e folga um.

O deputado federal Paulo Azi (União Brasil-BA) apresentou parecer favorável ao fim da jornada 6X1. Ele relatou duas propostas de emenda à Constituição (PECs) que reduzem a jornada de trabalho e escala de trabalho. “A redução da jornada pode se apresentar como mecanismo para preservação da saúde, da segurança e do bem-estar dos trabalhadores, promovendo o devido equilíbrio entre o tempo dedicado ao trabalho e à vida pessoal”, defendeu Aziz.

Contudo, após a apresentação do parecer, os deputados Lucas Hedecker (PSD-RS) e Bia Kicis (PL-DF) pediram vista coletiva (mais tempo para analisar a proposta). Em entrevista coletiva para a imprensa, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou que a previsão é que a votação retorne na próxima quarta-feira (22), após o feriado de Tiradentes (21).

Projetos

Azi relatou a PEC 8/2025, de relatoria da deputada Erika Hilton (Psol-SP), e a PEC 221/2019, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Ambas as propostas preveem o fim da escala 6X1 e reduzem a jornada de trabalho de 44 horas semanais para 36 horas semanais. Contudo, enquanto a PEC 221/2019 sugere a implementação a longo prazo, estabelecendo um prazo de dez anos de adaptação, a PEC 8/2025 propõe a redução de forma imediata.

Vale destacar que o poder Executivo encaminhou na terça-feira (14) ao Congresso Nacional o projeto de lei de mesma proposta, que reduz o limite da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, garante dois dias de descanso remunerado e proíbe qualquer redução salarial. O projeto foi encaminhado com urgência constitucional para análise nas Casas Legislativas.

Ao Correio da Manhã, o advogado trabalhista e sócio da Advocacia Maciel Bruno Maciel explicou que, apesar das PECs demorarem um pouco mais para tramitar, uma vez aprovadas elas tornam a mudança permanente, enquanto o PL tramita com maior facilidade, porém, “juridicamente pode ser considerado mais frágil, pois não requer alteração constitucional”.

O advogado trabalhista considera que o PL do governo é aplicável a curto prazo, mas “corre o risco de ser ‘vazio’ se não trouxer incentivos reais”, como a desoneração da folha de pagamento, “para que o pequeno empresário consiga abrir mão do sexto dia de trabalho sem quebrar”.

“Ao focar na negociação coletiva (acordos entre sindicatos e empresas), o governo retira a imposição de uma regra única, devolvendo a decisão para quem está na ponta. Isso diminui a resistência de bancadas ligadas ao setor produtivo, permitindo que cada setor ajuste seu cronograma conforme sua capacidade financeira”, ele detalhou.

A reportagem ainda conversou com a professora de direito do trabalho do Ibmec Brasília Moara Silva. Ela avaliou que a proposta enviada pelo governo “possui plena viabilidade de aplicação”, contudo, não pode ser pensada como um ato isolado. Ou seja, para a advogada “é necessário estruturar as mudanças harmonizando os impactos tributários, previdenciários e de ganho real de salários”.

“Um ponto crucial e que não pode ser deixado de lado é o combate ao trabalho informal e a ‘pjotização’. Se o custo de contratação subir e os empregadores optarem por substituir vínculos de emprego por contratos de prestação de serviços (PJ) para burlar a norma, o trabalhador não sentirá o ganho real da mudança, pois estará fora da proteção legal. Além disso, o Estado perde arrecadação previdenciária e fiscal direta na folha. Para impedir impactos negativos, a mudança deve ser acompanhada de mecanismos de fiscalização rigorosos e uma transição que viabilize a adaptação do mercado sem sufocar o emprego formal”, destacou para o Correio da Manhã.

Silva ainda reiterou que todo movimento de mudança enfrenta resistências. No caso, por parte do “setor produtivo, que alega aumento de custos e riscos de inflação ou crise e também com pressões por contrapartidas fiscais para compensar os novos custos operacionais”.

“No entanto, o cenário atual apresenta uma mudança de paradigma: muitos setores e empresas já estão reduzindo a jornada de trabalho de seus empregados por iniciativa própria. Elas se baseiam em estudos que comprovam maior compromisso, produtividade, retenção de talentos e, principalmente, a diminuição de afastamentos por doenças relacionadas à saúde mental do trabalhador”, ponderou a especialista em direito do trabalho.