O gesto que muda o jogo de Messias

Na avaliação de especialista, aceno público do ministro André Mendonça não garante votos, mas desarma rejeição e facilita articulação.

Por Rudolfo Lago -BSB

Apoio de Mendonça ajuda no caminho de Messias

A poucos dias de entrar na fase decisiva no Senado, a indicação de Jorge Messias ao Supremo ganhou um elemento novo, e menos óbvio, na engenharia política: o apoio público do ministro do STF, André Mendonça.

O gesto ocorreu em São Paulo, durante uma cerimônia na Assembleia Legislativa, onde o ministro do STF recebeu uma honraria em um ambiente marcado pela presença de lideranças ligadas ao bolsonarismo. Foi ali, diante desse público, que Mendonça fez a declaração que acendeu o alerta em Brasília.

Ao discursar, o ministro relembrou sua trajetória na Advocacia-Geral da União e, ao se dirigir a Messias — atual chefe da AGU e indicado de Lula — afirmou que fazia votos para que ele deixasse o cargo “por um bom motivo”, para estar “em breve” ao seu lado no Supremo. A fala, feita de forma direta e em tom público, teve peso imediato nos bastidores, justamente pelo contexto em que foi proferida.

André Mendonça atravessa um momento de forte protagonismo no Supremo, especialmente por estar à frente de casos de alto impacto político, como as apurações sobre fraudes no INSS e os desdobramentos do escândalo do Banco Master. Nesse contexto, sua manifestação pública em favor de Messias ganha dimensão maior nos bastidores: parte de um ministro que hoje ocupa posição central em temas sensíveis para o governo, para o Congresso e para setores do mercado.

O gesto vem ainda em um momento no qual o governo Lula enfrenta problemas de popularidade. Pesquisa Datafolha divulgada no sábado (11) mostra redução da vantagem do presidente na corrida presidencial. Ele agora empataria num eventual segundo turno não apenas com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Mas também com os ex-governadores de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e de Minas Gerais Romeu Zema (Novo).

Resistências

Longe de ser apenas um aceno protocolar, o gesto foi interpretado nos bastidores como uma tentativa de reconfigurar resistências dentro de um campo que, até então, olhava com desconfiança para o nome escolhido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A sabatina está marcada para o dia 29 de abril, após meses de espera desde o anúncio feito em novembro de 2025 e formalizado apenas no fim de março deste ano. Nesse intervalo, Messias já percorreu muitos gabinetes, mas viu sua indicação ficar travada por divergências políticas. É nesse cenário que o apoio de Mendonça passa a ter valor estratégico.

Cálculo político

Para o jurista e analista político Melillo do Nascimento, o gesto não tem nada de espontâneo. “Aqui não há milagre ecumênico nem surto de fraternidade tropical. Há cálculo político bem desenhado”, afirma. Segundo ele, o local e o contexto do apoio — um evento com forte presença do campo bolsonarista — foram escolhidos justamente para produzir efeito.

Ao declarar que espera ver Messias “em breve” ao seu lado no Supremo, Mendonça envia um recado direto ao eleitorado conservador e à bancada evangélica, dois núcleos que ainda apresentam resistência. “O gesto foi público porque a mensagem também precisava ser pública”, resume o especialista.

Peso real

Apesar do impacto simbólico, o apoio não resolve a equação sozinho. “Tem peso real, mas não é esta maravilha”, diz Melillo. Segundo ele, Mendonça funciona como uma espécie de “alavanca marginal”, capaz de suavizar vetos ideológicos e oferecer respaldo político para senadores que buscam justificar um eventual voto favorável.

Na prática, a conta ainda passa por negociações tradicionais. O governo segue atuando sobre bancadas como MDB e PSD, enquanto tenta conter resistências já explícitas. “O apoio de Mendonça não aprova ninguém sozinho, mas pode desradicalizar o ambiente para que a política faça o resto”, afirma.

Reposicionamento

O movimento também revela uma estratégia mais ampla dentro do próprio Supremo. Para Melillo, Mendonça amplia seu raio de atuação sem romper com sua base de origem. “Não parece conversão, parece ampliação de raio de ação”, diz. A leitura é de que o ministro busca ocupar um espaço mais institucional, capaz de dialogar com diferentes polos de poder.

Essa percepção é reforçada pelo professor de direito penal do Ibmec Brasília, Tédney Moreira. Para ele, a exposição pública de Messias e o diálogo com diferentes setores fazem parte de um movimento calculado. “É uma forma de apresentação de uma abertura para o diálogo com várias frentes da sociedade, garantindo um arrefecimento de resistência que seu nome pode sofrer”, afirma.

No fim, o destino da indicação segue condicionado à matemática do Senado. O apoio de Mendonça ajuda a reduzir a rejeição, especialmente entre conservadores e evangélicos, mas não substitui a articulação política clássica.

Como resume Melillo, o gesto funciona mais como senha do que como solução: “Ele diz ao campo conservador: ‘Não precisam gostar do governo para engolir este nome’”. Em Brasília, muitas vezes, é exatamente esse tipo de mensagem que transforma resistência em aprovação silenciosa.