Se endividamento é doença, bet é a causa

Vício em apostas torna-se problema político para Lula, que agora fala em atacá-lo

Por Beatriz Matos

Apostas bets estão entre as modalidades mais jogadas

O crescimento das apostas online no Brasil deixou de ser apenas um fenômeno de mercado para se tornar uma preocupação central do governo e do Congresso. Em meio ao aumento do endividamento das famílias — especialmente nas classes mais baixas —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a defender abertamente medidas mais duras contra o setor, incluindo até a possibilidade de proibição das chamadas bets.

“Se depender de mim, a gente fecha as bets”, afirmou o presidente, ao associar o avanço das apostas a uma crise social mais ampla. “Não é possível a gente continuar com essa jogatina desenfreada nesse país.”

A fala não veio isolada. Como mostrou o Correio da Manhã na terça-feira (7), a economia tornou-se a grande pedra no sapado do governo Lula na sua tentativa de reeleição. E, mais do que a economia, o endividamento das pessoas. E parte grande desse endividamento hoje está relacionada ao vício nos jogos de apostas. Assim, a fala de Lula sobre as bets acompanha uma mudança de tom do próprio governo, que regulamentou o setor em 2023, mas agora tenta conter os efeitos colaterais de um mercado que cresceu rápido, e, ao que indicam os dados, fora de controle.

Impacto

O diagnóstico é reforçado por estudos recentes. Levantamento do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) em parceria com a FIA Business School mostra que as apostas online já se tornaram o principal fator de endividamento das famílias brasileiras, superando crédito, juros e tempo de dívida.

O coeficiente associado às bets (0,2255) é mais que o dobro da soma dos fatores tradicionais. Em outras palavras: hoje, o peso das apostas no endividamento já supera o sistema financeiro convencional.

O impacto é ainda mais severo entre as famílias de menor renda. Nesse grupo, parte do orçamento que antes era destinado ao consumo básico — inclusive alimentação — tem sido redirecionada para jogos.
Dados do Banco Central (BC) ajudam a dimensionar o problema. O endividamento das famílias atingiu 49,7% da renda disponível em janeiro, próximo do maior nível da série histórica. Já o comprometimento da renda com dívidas chegou a 29,3%, recorde desde 2005. A inadimplência também segue elevada, em 6,9%.
Na prática, isso significa menos dinheiro circulando na economia local — e mais pressão sobre famílias já vulneráveis.

Bastidores

Nos bastidores do Congresso, o tema avança, mas com resistência. Parlamentares admitem dificuldade em enfrentar diretamente o setor, que ganhou força política e econômica nos últimos anos.

Ainda assim, há movimentos mais duros em curso. O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), concluiu um projeto que propõe a proibição total das apostas no país. Segundo ele, o texto será apresentado à bancada e pode ser protocolado já na próxima segunda-feira (13).

A avaliação do deputado é que o problema precisa ser enfrentado “pela raiz”. A proposta, no entanto, ainda depende de consenso interno.

Do outro lado, a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), que relatou a CPI das Bets, reconhece o avanço do debate, mas alerta para os limites e resistências políticas.

“Há, sim, certa resistência em enfrentar esse tema, sobretudo porque sabemos que existem interesses relevantes envolvidos. Ainda assim, após a CPI das Bets, o Congresso começou a avançar com propostas concretas”, afirmou.

Ela cita iniciativas como a restrição à publicidade e a criação de mecanismos de controle, mas pondera que o caminho mais viável, neste momento, é a regulação mais rígida — não a proibição. “Precisamos enfrentar o tema com responsabilidade e urgência”, disse.

Governo

Enquanto o Congresso debate o endurecimento das regras para o setor, o governo federal tenta agir em outra frente: conter os efeitos do endividamento que já se espalhou entre as famílias.

Segundo Pedro Uczai, a estratégia está sendo construída em duas linhas principais. A primeira é econômica. O governo prepara um novo programa de renegociação de dívidas, que deve usar recursos do FGTS como garantia para ampliar o acesso ao crédito e aliviar o peso das dívidas, especialmente entre a população de baixa renda.

A medida se conecta com ações já adotadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Segundo o ministro Luiz Marinho, ao longo de 2025 foram liberados cerca de R$ 20,5 bilhões do FGTS, sendo R$ 12 bilhões no primeiro semestre para aproximadamente 12 milhões de trabalhadores, e mais R$ 8,5 bilhões no fim do ano, alcançando cerca de 14 milhões de pessoas.

Ainda há um saldo residual estimado em R$ 7 bilhões, que o governo pretende liberar agora, com potencial de beneficiar cerca de 10 milhões de trabalhadores.

Paralelamente, o Ministério da Fazenda articula, junto aos bancos, um novo programa de renegociação de dívidas. A proposta prevê descontos que podem chegar a até 80% do valor devido, com o financiamento do saldo restante por meio de linhas de crédito mais acessíveis.

O novo modelo segue a lógica do programa Desenrola, que já beneficiou cerca de 15 milhões de brasileiros e viabilizou a renegociação de aproximadamente R$ 53 bilhões em dívidas. Agora, o foco é tornar o acesso mais simples e direcionado, especialmente para quem ganha até três salários-mínimos.

A segunda frente é tecnológica. O governo estuda mecanismos para impedir que pessoas que renegociarem dívidas, que estejam amparadas pelo programa de endividamento, possam continuar apostando. Na prática, a proposta em discussão envolve o bloqueio do CPF desses beneficiários em plataformas de apostas.

A ideia é interromper o ciclo de endividamento, evitando que o alívio financeiro seja rapidamente revertido em novas perdas com jogos.

Vício Digital

O debate também saiu do campo econômico e entrou na saúde pública. Para especialistas, o vício em apostas segue a mesma lógica de outras compulsões.

“O jogo patológico é um transtorno psiquiátrico. As bets são mais uma forma disso”, explica o psiquiatra Fábio Aurélio Costa Leite. Ele descreve um ciclo clássico: a sensação inicial de ganho gera prazer, seguida pela perda, que leva o jogador a apostar novamente para tentar recuperar o dinheiro — criando uma espiral de endividamento.

“O número de pessoas aumentou bastante em consultório. Há casos de pessoas que se endividaram em mais de R$ 1 milhão com renda muito menor”, relata.

O acesso facilitado pelo celular agrava o cenário. Diferentemente dos jogos tradicionais, as apostas estão disponíveis a qualquer momento — inclusive para adolescentes.

Bolso afetado

Do ponto de vista econômico, o fenômeno também preocupa. Segundo o economista João Gabriel, consultor do Banco Mundial e da Habe Lux, as bets já disputam diretamente o orçamento básico das famílias.

“Entre 2018 e 2023, os gastos com apostas nas classes D e E quadruplicaram. Em alguns casos, até 5% do dinheiro destinado à alimentação está sendo redirecionado para bets”, afirma.

Ele destaca ainda que grande parte desse dinheiro não retorna para a economia brasileira, já que muitas empresas são estrangeiras. “Não gera emprego aqui, não aquece o comércio do bairro, não volta para a comunidade.”

Ao mesmo tempo, ele alerta para os riscos de uma proibição total. “Quando a regulação endurece demais sem fiscalização eficiente, parte do mercado vai para a clandestinidade”, diz.

Dilema

O governo, portanto, enfrenta um dilema: conter os danos sociais sem perder arrecadação e sem empurrar o mercado para a ilegalidade.

A discussão também começa a ganhar contornos morais, como ocorreu com o cigarro e o álcool. Ao classificar o vício em apostas como “doença”, Lula muda o eixo do debate — que deixa de ser apenas econômico e passa a envolver saúde pública.

Mas, no Congresso, o caminho ainda é incerto. Entre a proibição total defendida por parte da base e a regulação mais dura proposta por outros parlamentares, o consenso parece distante. Enquanto isso, os números seguem crescendo e o drama das bets impacta as famílias brasileiras.