Galípolo defende BC no caso Master

Na CPI, presidente da autoridade monetária detalha como o banco chegou ao colapso

Por Beatriz Matos

Galípolo reconheceu problemas estruturais do BC

A CPI do Crime Organizado desta quarta-feira (8) foi dominada pelo caso Banco Master e expôs, com mais clareza, como a investigação deixou de tratar apenas de facções para avançar sobre as brechas do sistema financeiro, causado pelo rombo bilionário do conglomerado bancário de Daniel Vorcaro.

O depoimento do presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, trouxe novos elementos sobre a atuação da autoridade monetária, a liquidação da instituição e os impactos financeiros do caso.

Logo na abertura, o presidente da comissão, senador Fabiano Contarato (PT-ES), registrou a ausência, pela segunda vez, do ex-presidente do BC Roberto Campos Neto — peça considerada central para entender a fiscalização do banco antes da crise. A CPI busca esclarecer se houve falhas ou demora na atuação do regulador.

Sigilo e pressão

Um dos pontos mais tensionados da sessão foi o sigilo imposto aos documentos da liquidação. O Banco Central determinou sigilo de oito anos para acesso às informações, com base em norma vigente desde 2018. Galípolo defendeu a medida: “Todas as resoluções seguiram essa regra. Abrir exceção agora poderia gerar questionamentos jurídicos”.

A justificativa não convenceu parte dos parlamentares. Senadores apontaram que o sigilo dificulta o avanço das investigações e a identificação de responsabilidades, especialmente diante de suspeitas de irregularidades envolvendo contratos, movimentações financeiras e até possíveis relações com autoridades.

No mesmo contexto, vieram à tona questionamentos sobre reuniões fora da agenda oficial e pressões políticas durante o processo. Galípolo confirmou um encontro no Planalto com o empresário Daniel Vorcaro, controlador do banco, mas negou interferência: “A orientação foi clara: atuar com técnica, sem proteger ou perseguir ninguém”.

Rombo e liquidação

Ao detalhar o caso, Galípolo traçou uma linha do tempo que ajuda a entender o colapso. Segundo ele, o Banco Master já apresentava problemas de liquidez no início de 2025 e dependia de novas captações para manter suas operações, o que significa ser um sinal clássico de desequilíbrio financeiro.

O alerta se agravou quando a fiscalização identificou operações atípicas, como a criação e venda de carteiras novas para gerar liquidez. “Isso é pouco usual. Não é o padrão esperado de funcionamento de um banco”, afirmou. Um dos exemplos que reforçam essas suspeitas envolve os empréstimos consignados sem lastro e sem autorização, identificados em contas de professores baianos — esquema revelado pelo Correio da Manhã que mostrou o drama vivido pelos docentes. Os relatos indicam a existência de débitos padronizados, com valores próximos, inseridos sem consentimento dos titulares das contas.

A situação evoluiu ao longo do ano. O banco deixou de cumprir exigências como o recolhimento de compulsório, foi alvo de processos sancionadores e passou a depender de apoio do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Segundo Galípolo, o FGC chegou a arcar com pagamentos graduais para evitar um impacto maior no sistema.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Em 2025, o banco teve captação líquida negativa de R$ 9,2 bilhões com garantia do FGC e mais R$ 2 bilhões sem garantia. O acionista ainda aportou cerca de R$ 2,3 bilhões, mas não foi suficiente para reverter o quadro.

Sem solução de mercado — após o fracasso da tentativa de venda ao BRB —, o banco acabou liquidado em novembro de 2025. No dia da liquidação, segundo o BC, o caixa disponível representava apenas 10% das obrigações que venciam naquele momento.

Conexões e impacto

A CPI tenta agora conectar esses elementos ao possível uso do sistema financeiro para práticas ilícitas. Para o relator, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), o caso revela fragilidades na fiscalização e no combate à lavagem de dinheiro.

Galípolo reconheceu limitações estruturais do Banco Central, como déficit de pessoal — hoje com cerca de 3 mil servidores — e dificuldade de acompanhar um sistema que movimenta cerca de R$ 8 trilhões por dia.

Além disso, destacou que parte das perdas recai sobre investidores sem cobertura do FGC, enquanto o fundo absorve outra parcela, o que, na prática, redistribui o impacto para o sistema financeiro como um todo.

Com prazo para acabar e sem prorrogação autorizada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a CPI acelera os trabalhos finais. Nos bastidores, o caso Master já é tratado como eixo central do relatório.