BRB já sabia dos problemas nos créditos do Master
Caso remete a esquema revelado pelo Correio da Manhã, que mostrou professores da Bahia com consignados falsos
O Banco de Brasília (BRB) aprofundou sua relação com o Banco Master em um momento em que já havia sinais concretos de risco envolvendo a instituição privada. Registros encaminhados ao Tribunal de Contas da União (TCU) e à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado indicam que a aproximação ocorreu em meio a questionamentos sobre a qualidade dos ativos, fragilidade de liquidez e controvérsias regulatórias.
Parte desses ativos aparece ligada a um esquema que já havia sido revelado pelo Correio da Manhã: professores da rede estadual da Bahia identificaram empréstimos consignados em seus nomes sem autorização, sem liberação de valores e sem qualquer formalização contratual. As operações, inicialmente associadas à CredCesta, foram posteriormente incorporadas ao Banco Master e, mais adiante, passaram a constar nos sistemas oficiais tendo o BRB como credor.
Alertas
O avanço das operações ocorreu no mesmo período em que o BRB passou a discutir a aquisição do Banco Master, movimento anunciado em março de 2025, mas que acabou não avançando após avaliação do Banco Central (BC). Antes mesmo da tentativa de compra, no entanto, já havia resistência dentro da própria estrutura do banco público.
Uma representação enviada ao TCU relata que, na mesma época, o Conselho de Administração do BRB aprovou a aquisição de R$ 270 milhões em créditos do Master, apesar de alertas de conselheiros sobre o índice de liquidez da instituição, que estaria abaixo do mínimo previsto na política de risco. Ainda segundo o documento, mensagens atribuídas ao então diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, teriam sido apresentadas na reunião, com incentivo à compra das carteiras mesmo diante de indícios de irregularidades — comunicações que não teriam sido registradas em ata.
Os papéis oficiais também afastam a versão de que a operação teria sido apenas uma estratégia de expansão. O Banco Master já era descrito, naquele momento, como uma instituição com ativos de baixa liquidez e qualidade questionada.
Na prática
Na ponta, os efeitos dessas operações aparecem nos relatos dos professores baianos e que foram revelados pelo Correio da Manhã. Os registros identificados no sistema do Banco Central seguiam um padrão: contratos próximos de R$ 9,9 mil, classificados como “em dia”, mas inexistentes na prática. Mesmo sem desconto em folha ou depósito em conta, os débitos eram suficientes para comprometer a margem consignável, reduzir o score de crédito e impedir novas operações financeiras.
As denúncias levantam dúvidas sobre o uso indevido de dados funcionais sensíveis, já que a contratação regular de consignados exige autorização expressa e documentação formal — etapas que, segundo os servidores, nunca ocorreram.
CPI do Crime Organizado
Sem uma comissão específica sobre o Banco Master, a CPI do Crime Organizado passou a assumir esse flanco e aprovou nesta terça-feira (31), a convocação de autoridades para esclarecer as conexões entre o BRB e a instituição.
Entre os nomes chamados estão o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) e o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto — que será reconvocado após faltar à comissão. Os senadores querem entender não apenas as tratativas envolvendo a tentativa de aproximação entre os bancos, mas também se houve influência política nas decisões e qual era o nível de conhecimento sobre a qualidade dos ativos negociados.