PSD escolhe Caiado para o jogo eleitoral de 2026

Kassab opta pelo governador de Goiás, nome mais à direita, como alternativa

Por Beatriz Matos

Kassab fez escolha mais à direita para o pleito presidencial com Caiado

Trinta e sete anos depois de galopar pelas telas da TV montado em um cavalo branco, Ronaldo Caiado (PSD) prepara a sela para um novo e decisivo percurso. O governador de Goiás foi anunciado, nesta segunda-feira (30), como pré-candidato do PSD à Presidência da República, consolidando um movimento iniciado em 14 de março, quando oficializou sua filiação ao partido para viabilizar o projeto nacional.

A escolha ocorre após uma disputa interna que envolveu o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), e o do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), que acabou desistindo da corrida dias antes. Com a decisão, o PSD deixa de buscar um nome mais ao centro e assume uma estratégia de posicionamento mais claro no campo da direita.

A escolha, no entanto, levanta dúvidas sobre a viabilidade e o alcance do nome de Caiado na disputa nacional. Para os especialistas ouvidos pelo Correio da Manhã, o perfil de Caiado é visto como um ativo com limites claros de expansão.

Mais conservador

Para o professor da Estácio-Belo Horizonte e cientista político Lucas Zandona, “o perfil do Ronaldo Caiado é um perfil bem mais conservador do que Eduardo Leite”, e isso impacta diretamente na disputa, já que “a candidatura dele fragmenta um pouco a situação da direita”.

Já o professor de políticas públicas do Ibmec, Eduardo Galvão, destaca que o governador chega com lastro administrativo, ao afirmar que ele tem “uma gestão bem avaliada em Goiás”, mas alerta para o limite dessa força. “O desafio está na escala”, argumenta, porque “o que funciona em Goiás não necessariamente se traduz automaticamente em votos no Brasil”.

Do lado do governo, a avaliação é de baixo impacto eleitoral. A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) afirmou que Caiado deve ficar na “periferia da eleição” e classificou o governador como um nome de perfil mais agressivo em comparação a outros quadros do campo da direita.

Estratégia

Mais do que lançar um candidato, o PSD busca marcar território em um campo político ainda fragmentado. Para o professor Eduardo Galvão, a decisão não resolve a dispersão da direita, mas reposiciona o partido dentro dela.

“A escolha de Ronaldo Caiado pelo PSD representa, antes de tudo, uma decisão de posicionamento. O partido abre mão de um nome mais ao centro e aposta em um perfil com identidade mais clara à direita, o que ajuda a marcar território no debate nacional, mas não resolve o problema central desse campo, que é a dispersão.”

Na prática, segundo o especialista, Caiado entra mais forte como peça de negociação política do que como líder eleitoral consolidado neste momento.

Discurso

No primeiro movimento após o anúncio, Caiado já deixa claro que vai defender em seu governo uma anistia ampla, geral e irrestrita, inclusive para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ao justificar a proposta, afirmou que pretende “pacificar o Brasil” e reduzir a polarização política.

O governador também adotou um discurso crítico ao PT, afirmando que o desafio não é apenas vencer eleições, mas “impedir que o partido volte a ser uma alternativa de poder”. A fala reforça o alinhamento ideológico mais à direita, que já era apontado como uma das marcas de sua candidatura.

Reação

A escolha, no entanto, expôs fissuras internas. Eduardo Leite manifestou publicamente insatisfação e afirmou que a decisão tende a manter o ambiente de polarização. Já Ratinho Júnior elogiou a definição do partido e destacou a capacidade de gestão de Caiado.

Nos bastidores, a avaliação de dirigentes é de que o perfil mais conservador do governador de Goiás pode atrair parte do eleitorado à direita, inclusive votos que hoje orbitam em torno de nomes ligados ao bolsonarismo.

Desafios

Apesar do capital político em Goiás, especialistas apontam limites na projeção nacional. O cientista político Lucas Zandona avalia que o principal obstáculo será romper a barreira regional.

“O perfil do Ronaldo Caiado é um perfil bem mais conservador do que o de Eduardo Leite, embora Eduardo Leite e Caiado tenham por semelhança que são políticos bem avaliados, mas com uma projeção regional. Não são nomes totalmente conhecidos, do qual o eleitorado nacional conhece e acompanha.”

Ele também destaca que o posicionamento ideológico pode dificultar alianças e ampliar a fragmentação do campo à direita. “Por ser o Caiado um candidato de perfil mais conservador, nós podemos falar que a que a candidatura dele fragmenta um pouco a situação da direita.”
Na mesma linha, o professor Eduardo Galvão pondera que o desafio de Caiado está na escala eleitoral. “Para se tornar competitivo, ele precisa avançar em três frentes simultaneamente: nacionalização, alianças e narrativa.”

Com a definição, o PSD passa a atuar como protagonista nas articulações para 2026, elevando seu poder de barganha no tabuleiro político. A leitura é de que o partido ganha espaço, mas não resolve o impasse. Segundo o professor Eduardo Galvão, a decisão “não resolve o problema central desse campo, que é a dispersão”, mantendo a direita fragmentada e sem um nome capaz de unificar a disputa.