Brasília tem semana decisiva para o tabuleiro de 2026

Prazo de desincompatibilização termina no sábado

Por Beatriz Matos

Destino de Alckmin é uma das incógnitas

A próxima semana será daquelas em que o silêncio do plenário engana. Com o Congresso esvaziado, Brasília deve funcionar mais nos bastidores do que no painel eletrônico. A suspensão das votações na Câmara, a previsão de funcionamento reduzido no Senado e a proximidade do feriado da Páscoa empurram deputados, ministros e caciques partidários para fora da rotina legislativa e para dentro das negociações que podem redesenhar o mapa eleitoral de 2026.

A Câmara cancelou as sessões deliberativas da semana, e no Senado a previsão é de atividades apenas até terça-feira (31). O único compromisso já previsto na Câmara é a sessão solene de quarta-feira (1º), em homenagem ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo.

O esvaziamento não ocorre por acaso. Ele coincide com a reta final da janela partidária, período em que parlamentares podem trocar de legenda sem risco de perder o mandato, e com a contagem regressiva para a desincompatibilização.

Na prática, a semana entre 30 de março e 4 de abril deve ter menos debate público e mais costura reservada. É quando palanques começam a ganhar contorno mais claro, disputas regionais são destravadas e o governo precisa decidir, quase de uma vez só, quem sai e quem fica.

Prazo acabando

Pelo calendário eleitoral aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ocupantes de determinados cargos públicos que pretendem disputar as eleições de outubro precisam se afastar até 4 de abril.

A regra alcança, entre outros, ministros de Estado, governadores, prefeitos, magistrados, integrantes de tribunais de contas e dirigentes de empresas públicas. Quem descumprir o prazo pode se tornar inelegível. Já deputados federais, senadores e deputados distritais não precisam renunciar ao mandato para concorrer. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.

Saídão

É por isso que a semana deve ser forte em anúncios políticos. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) já indicou que deixará o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços no dia 2 de abril, dentro do prazo de desincompatibilização, embora permaneça na Vice-Presidência. O movimento alimenta a expectativa sobre qual papel ele terá na chapa governista.

No mesmo calendário, o ministro da Educação, Camilo Santana (PT-CE), também deve deixar o cargo em 2 de abril, com o nome ainda circulando para disputas no Ceará.

Já a ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB-MS), indicou que pretende se afastar até o fim de março, em meio à articulação para disputar o Senado pelo estado de São Paulo.

Outros nomes seguem sem data oficialmente cravada, mas pressionados pelo mesmo prazo. É o caso do ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT-BA), que articula candidatura ao Senado, e da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), cotada para a disputa do Senado no Paraná.

Nos bastidores do Planalto, a expectativa é de que essas saídas se concentrem até 4 de abril, prazo final estabelecido pela Justiça Eleitoral, com substituições majoritariamente feitas por secretários-executivos, em caráter interino, para evitar descontinuidade na máquina pública.

Lula no Ceará

Mesmo com o Congresso em marcha lenta, o Planalto mantém a agenda ativa. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarca no Ceará na quarta-feira (1º), onde participa da inauguração do primeiro bloco do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), instalado na Base Aérea de Fortaleza.

Na mesma viagem, Lula também deve participar de um evento que marca dois anos do programa Pé-de-Meia, ligado ao Ministério da Educação, além de visitar as obras de um data center da empresa TikTok no estado.

Ajustes finais

Fora da agenda formal, outro assunto deve seguir rondando Brasília nos próximos dias: as negociações em torno da futura delação de Daniel Vorcaro no caso Master.

O ex-banqueiro assinou termo de confidencialidade com a PF e a PGR, recebeu sucessivas visitas da defesa desde 20 de março e tenta avançar num acordo, embora investigadores tratem o movimento com cautela e cobrem provas, documentos e consistência no que vier a ser entregue. Com plenário vazio e prazo correndo, a capital entra numa semana em que quase tudo de mais importante deve acontecer longe do microfone.