Haddad deixa Fazenda e vira peça-chave de Lula em São Paulo

O agora ex-ministro disputará São Paulo. Dário Durigan assume

Por Beatriz Matos

A pedido de Lula, Haddad disputará o governo de São Paulo

A saída de Fernando Haddad do Ministério da Fazenda, confirmada nesta quinta-feira (19), marca uma inflexão estratégica no governo Lula e abre oficialmente a corrida política de 2026 no maior colégio eleitoral do país.

O movimento, que já era esperado nos bastidores, foi formalizado durante a Caravana Federativa, em São Paulo, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou que o atual secretário-executivo, Dário Durigan, assumirá o comando da equipe econômica. A mudança atende a um desenho político claro: posicionar Haddad como o nome do PT na disputa pelo governo paulista.

Transição

A substituição ocorre sem ruptura na condução da política econômica. Durigan, braço direito de Haddad desde o início da gestão, já atuava como principal articulador político da pasta e é visto como um nome de continuidade. Com passagem pela Advocacia-Geral da União (AGU), Casa Civil e também pela iniciativa privada, o novo ministro tem perfil técnico e trânsito político consolidado dentro do governo.

Ao deixar o cargo, Haddad fez um balanço da gestão e destacou a aprovação da reforma tributária, além de medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e o aumento de investimentos públicos. Lula, por sua vez, elevou o tom e afirmou que o agora ex-ministro “passará para a história” pelo desempenho à frente da Fazenda.

Nos bastidores, a avaliação é de que a transição já estava precificada, inclusive pelo mercado, justamente pela previsibilidade da sucessão e pela manutenção da linha econômica.

Estratégia

A candidatura de Haddad atende a uma necessidade central do PT: reconstruir um palanque competitivo em São Paulo. Segundo o cientista político Vitor Sandes, a decisão é “puramente política” e mira a relevância eleitoral do estado.

“Trata-se de cumprir uma função estratégica para o partido, pensando na força do maior colégio eleitoral do país”, afirma.

Mesmo tendo sinalizado preferência inicial por disputar o Senado, Haddad teria atendido a um pedido direto de Lula para encarar a corrida ao Palácio dos Bandeirantes. A avaliação interna é de que ele reúne recall eleitoral, já foi prefeito da capital e mantém vínculo direto com o presidente — fatores considerados essenciais para impulsionar candidaturas proporcionais e fortalecer o projeto nacional do partido.

Para o especialista, a movimentação também não deve provocar sobressaltos na condução da política econômica. “Certamente não terá mudanças significativas, visto que o Ministério da Fazenda geralmente tem um forte controle da orientação política do partido do presidente. Isso já está precificado pelo mercado”, avalia.

O cientista político destaca ainda que a candidatura tem impacto direto na disputa proporcional. “Servirá para poder alinhar votos, conseguir eleger uma bancada relevante para a Câmara dos Deputados e para o Senado, ainda mais que estarão em disputa duas vagas de senadores”, completa.

Ao lado dele, o PT pretende explorar a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que deve participar de agendas no interior paulista, ampliando o alcance da campanha em regiões mais conservadoras.

Cenário

O tabuleiro em São Paulo começa a ganhar forma com múltiplas candidaturas. A ministra do Planejamento, Simone Tebet (que deve trocar o MDB pelo PSB), já confirmou que disputará o Senado pelo estado, o que adiciona peso à disputa pelas duas vagas em aberto. A composição das chapas, no entanto, ainda deve avançar apenas nas próximas semanas.

Para Haddad, o principal desafio será enfrentar a força política do atual governador Tarcísio de Freitas, que mantém boa avaliação. A estratégia petista deve passar pela construção de uma candidatura mais combativa, buscando polarizar e levar a disputa ao segundo turno — etapa considerada decisiva para o projeto nacional do partido em 2026.