Fim da aposentadoria compulsória avança no STF, mas trava no Senado
Proposta apresentada por Flávio Dino quando ainda era senador voltou ao centro da CCJ após decisão monocrática do ministro no STF
A discussão sobre o fim da aposentadoria compulsória como punição para magistrados ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (18), na Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ).
A PEC 3/2024, apresentada por Flávio Dino quando ainda exercia mandato de senador, começou a ser analisada, mas teve a votação adiada após pedido de vista do senador Sergio Moro (União-PR). O tema voltou à pauta dois dias depois de o agora ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ter decidido, em caso concreto, que a aposentadoria compulsória deixou de subsistir como sanção disciplinar para juízes após a reforma da Previdência de 2019.
Origem
Pelo texto da PEC, a Constituição passaria a vedar o uso da aposentadoria como punição disciplinar para magistrados, membros do Ministério Público e militares. No caso dos juízes, a proposta prevê que, diante de faltas graves, a sanção seja a perda do cargo, demissão ou equivalente. Na justificativa, Dino sustenta que a aposentadoria é benefício previdenciário e não pode ser convertida em pena, sob pena de desvio de finalidade. O texto também parte da premissa de que não há vitaliciedade capaz de se sobrepor ao princípio da moralidade administrativa.
Hoje, o modelo ainda permite que, em infrações disciplinares graves que não configurem crime, magistrados sejam aposentados compulsoriamente com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço. Na prática, deixam a função, mas continuam recebendo dos cofres públicos. Foi justamente esse mecanismo que Dino atacou no Supremo e que agora o Senado tenta enfrentar por meio de alteração constitucional.
Choque
A sessão da CCJ deixou clara que, embora haja convergência em torno da crítica ao modelo atual, não há consenso sobre o caminho. O senador Esperidião Amin (PP-SC) reagiu à coincidência entre a tramitação da PEC e a decisão recente do STF. “Repudio decisões monocráticas como esta”, afirmou, ao defender que o Senado não seja pautado por decisões individuais da Corte. Na mesma linha, o senador Carlos Portinho (PL-RJ) disse que a decisão de Dino, embora tenha gerado boa repercussão inicial, pode acabar concentrando ainda mais poder no Supremo.
Do outro lado, a relatora Eliziane Gama (PSD-MA) rebateu a tese de que o Senado devesse esperar o STF. Segundo ela, a proposta já havia sido pautada antes da decisão do ministro e o Congresso precisa cumprir seu papel. “Nós temos que fazer a nossa função, é legislar”, disse. Já o senador Eduardo Braga (MDB-PA) reforçou a cobrança e afirmou que manter aposentadoria como punição é, na prática, “um prêmio”.
Impasse
O senador Sergio Moro pediu vista e apresentou emenda para restringir o fim da aposentadoria compulsória aos casos de faltas graves ligadas a crimes, como corrupção, violência e favorecimento ao crime organizado. A ideia, segundo ele, é evitar que processos disciplinares sejam desvirtuados e atinjam a independência da magistratura. O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), por sua vez, criticou a inclusão dos militares no mesmo texto, dizendo que a PEC “mistura alhos com bugalhos”.
A pressão sobre o texto também veio de fora do Congresso. A Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) se posicionou contra alterações que, na avaliação da entidade, avançam sobre a garantia constitucional da vitaliciedade, considerada um instrumento de proteção contra interferências indevidas no exercício das funções. Diante das divergências e da necessidade de aprofundar o debate, a CCJ aprovou a realização de uma audiência pública no dia 1º de abril. A expectativa é que a proposta volte à pauta no dia 8, quando os senadores terão de decidir se consolidam, por via legislativa, o entendimento que começou a ser desenhado no Supremo ou se redefinem os limites dessa mudança no próprio Congresso.