Trumpismo bate à porta de Bolsonaro
Visita acende alerta sobre o que assessor de Trump conversará com o ex-presidente
A autorização do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes para que um assessor ligado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, visite o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão reacendeu discussões políticas e diplomáticas em Brasília. O encontro deve ocorrer no Complexo da Papuda na próxima quarta-feira (18), entre 8h e 10h.
O visitante é Darren Beattie, recentemente nomeado assessor sênior para política em relação ao Brasil no Departamento de Estado norte-americano. A função envolve acompanhar e propor políticas de Washington voltadas ao relacionamento com Brasília. Segundo a decisão, ele poderá estar acompanhado de um intérprete, cujo nome deverá ser previamente informado ao STF.
A defesa de Bolsonaro havia solicitado que a visita ocorresse fora dos dias regulares de visitação do presídio — quartas-feiras e sábados — alegando incompatibilidade com a agenda do assessor. O pedido acabou sendo autorizado dentro do cronograma permitido.
Para especialistas, embora juridicamente se trate apenas de um direito de visita, o episódio ganha contornos políticos inevitáveis pelo perfil dos envolvidos.
“As circunstâncias de se tratar de um ex-presidente e de um assessor de governo estrangeiro certamente têm relevância como mensagem política”, afirma o doutor em direito internacional Saulo Stefanone Alle, ao destacar que, do ponto de vista jurídico, a autorização segue as regras normais do sistema prisional.
Narrativa
No campo político, a visita ocorre em um momento sensível do debate internacional sobre segurança pública. Nos Estados Unidos (EUA), setores ligados ao trumpismo têm defendido classificar organizações criminosas latino-americanas como grupos terroristas — uma discussão que passou a incluir facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
Para o professor de políticas públicas do Ibmec Brasília Eduardo Galvão, o encontro possui forte valor simbólico dentro da narrativa bolsonarista.
“O gesto tem uma dimensão simbólica importante, mas não deve ser lido automaticamente como um movimento diplomático formal. A autorização de Alexandre de Moraes ocorreu dentro das regras normais de visitação do presídio, o que indica que o STF tratou o pedido como um ato privado, não como uma iniciativa política ou institucional entre governos.”
Segundo ele, ainda que não represente uma posição oficial do governo americano, a imagem pode reforçar a percepção de articulação internacional do campo conservador.
“Para o campo bolsonarista, a imagem é poderosa. Ela ajuda a reforçar a narrativa de que Bolsonaro continua conectado a redes internacionais da direita e que seu capital político ultrapassa o cenário doméstico.”
Segurança
A discussão sobre PCC e Comando Vermelho ocorre paralelamente a uma articulação diplomática conduzida pelo governo brasileiro para evitar que os Estados Unidos classifiquem essas facções como organizações terroristas estrangeiras.
No Itamaraty, a avaliação é que uma decisão unilateral de Washington poderia gerar impactos sobre a soberania nacional e alterar a forma de cooperação internacional no combate ao crime organizado. A estratégia brasileira tem sido buscar diálogo com autoridades americanas e ampliar parcerias em segurança, inclusive com órgãos como o FBI.
Ao mesmo tempo, o governo sustenta que as facções brasileiras devem ser tratadas como organizações criminosas voltadas ao lucro financeiro, e não como grupos terroristas.
Saulo Stefanone Alle alerta que a adoção desse enquadramento pode gerar riscos jurídicos e políticos.
“A suposta classificação das organizações criminosas mais proeminentes do Brasil como organizações terroristas, pelo Governo norte-americano, levanta a preocupação sobre a adoção do discurso de combate ao terrorismo como argumento a justificar abusos e ingerência na soberania brasileira.”
Enquanto a visita é organizada em Brasília, aliados de Bolsonaro seguem atuando no exterior. Nesta quarta-feira (11), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou da posse do presidente chileno José Antonio Kast.
A presença do parlamentar na cerimônia teve repercussão diplomática. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu cancelar a viagem que faria ao Chile e enviou em seu lugar o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.