Lula acerta eleição em SP com Alckmin e Haddad
Presidente vai se reunir com a dupla para detalhar qual vai ser o papel de cada um nas eleições de 2026, em um movimento para reduzir perdas
A passagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por São Paulo nesta terça-feira (3) vai além das agendas oficiais. Entre a visita à fábrica da Bionovis, em Valinhos, e a participação na II Conferência Nacional do Trabalho, na capital, o presidente pretende aproveitar a presença de dois de seus principais aliados no estado: o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para discutir o desenho eleitoral de 2026.
A conversa deve ocorrer ainda em solo paulista. Haddad e Alckmin já estão no estado desde o fim de semana e retornam a Brasília na noite de terça-feira, assim como Lula. O encontro ocorre em um momento em que o presidente busca evitar fragilidade no maior colégio eleitoral do país, historicamente resistente ao PT.
Palanque
Nos bastidores, Lula já sinalizou que deseja ver Haddad e Alckmin exercendo papéis centrais na disputa estadual, seja ao governo de São Paulo, seja ao Senado. A lógica é clara: montar um palanque competitivo que reduza perdas e amplie a presença governista em território estratégico para a eleição presidencial.
Haddad tem afirmado que não há decisão tomada sobre candidatura. Alckmin, por sua vez, mantém discurso cauteloso: diz que pode atender a “pedidos especiais” do presidente e ajudar “em qualquer posição”, embora também já tenha indicado que não pretende disputar outro cargo se precisar deixar a vice-presidência.
Para o professor Jackson De Toni, do Ibmec Brasília, a movimentação revela uma estratégia sofisticada.
“A possível decisão de Lula lançar Fernando Haddad ao governo de São Paulo e Geraldo Alckmin ao Senado indica uma estratégia de dupla camada no maior colégio eleitoral do país. De um lado, Haddad encarna o enfrentamento direto ao bolsonarismo paulista, nacionalizando a disputa estadual e mobilizando o eleitorado progressista. De outro, Alckmin funciona como fiador de moderação, preservando canais com o centro político e com setores empresariais que resistem à polarização. O arranjo combina confronto programático com ampliação de coalizão.”
Cálculo
A aposta, porém, não é isenta de riscos. O cientista político Leandro Gabiati avalia que o governo parte de um cenário adverso. “O primeiro ponto é o governo saber que perderá em São Paulo em relação à oposição. Então, o que o Lula tenta fazer é montar o melhor palanque possível para justamente perder de menos, por assim dizer, ou ter uma diferença menor quanto possível.”
Especialistas apontam que o desempenho em São Paulo pode influenciar diretamente o ambiente presidencial. Um resultado competitivo fortalece a narrativa de frente ampla; um fracasso amplia custos simbólicos e limita a margem de negociação.
Além do tabuleiro paulista, a movimentação tem reflexos nacionais. Segundo Leandro Gabiati, há um componente estratégico na eventual candidatura de Alckmin ao Senado. “Obviamente o Lula ganha ao colocar o Alckmin em São Paulo e ganha porque abre um espaço na chapa para colocar alguém eventualmente mais ao centro ou de outro partido.”
Na prática, o presidente testa alternativas enquanto mantém aliados sob sua órbita. O encontro em São Paulo não sela definições, mas antecipa o debate interno sobre 2026. E deixa claro que, antes mesmo de a campanha começar, o maior estado do país já ocupa o centro do cálculo político do Planalto.
