Entre o Supremo e o Senado, caso Master em semana crítica

Ausência na CPMI nesta segunda deixa em suspense o depoimento de Vorcaro na CAE na terça

Por Beatriz Matos

Vorcaro decidiu faltar à CPMI do INSS

O depoimento do banqueiro Daniel Vorcaro à CPMI do INSS estava marcado para a tarde desta segunda-feira (23), mas não vai acontecer. O dono do Banco Master comunicou que não compareceria a Brasília justamente no momento em que o Supremo Tribunal Federal (STF) reconfigura os rumos da investigação e amplia o espaço de atuação da Polícia Federal (PF).

A ausência, longe de encerrar o episódio, aprofunda a crise política que se formou em torno do caso.

A decisão ocorreu dias depois de o ministro André Mendonça autorizar o compartilhamento de dados sigilosos do empresário com os parlamentares. Até então, o banqueiro havia assegurado ao presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), que estaria presente na comissão.

Interlocutores de Vorcaro afirmam que ele teme hostilidades no deslocamento de São Paulo à capital federal e rejeita transporte da Polícia Federal, por entender que não é “bandido”. No Congresso, contudo, a leitura é menos protocolar: a desistência evita desgaste público em um ambiente onde as perguntas poderiam ultrapassar os contratos de crédito consignado com o INSS — foco formal da CPMI.

Próximo passo

A tensão não termina nesta segunda (23). Está marcada para terça-feira (24) a oitiva de Vorcaro na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. Diferentemente da CPMI, a CAE não delimita previamente o escopo dos questionamentos e pode avançar sobre a estrutura financeira do banco, sua política de captação e as relações institucionais construídas durante o período de expansão.

Nos bastidores, parlamentares avaliam que a ausência na comissão mista antecipa um ambiente ainda mais pressionado na CAE. Além disso, recentemente o ministro André Mendonça decidiu que é facultativa a ida de Daniel Vorcaro às duas comissões.

Nova condução

Enquanto o Congresso se movimenta, o STF também redesenha a condução do inquérito. Ao assumir a relatoria, Mendonça reverteu decisões anteriores e devolveu à PF maior autonomia técnica. Autorizou o reforço da equipe responsável pela análise de mais de 100 dispositivos eletrônicos apreendidos e determinou que apenas agentes diretamente envolvidos tenham acesso às informações, inclusive com dever de sigilo em relação a superiores hierárquicos, afastando o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Nos bastidores, a medida foi interpretada como tentativa de blindar os investigadores de eventuais pressões internas. A expectativa é que, com a ampliação da perícia, a PF encaminhe novo relatório ao relator antes de acabar o mês de fevereiro.

Tensão paralela

Em outro eixo da crise, na sexta-feira (21), o presidente da Unafisco Nacional, Kléber Cabral, prestou depoimento por videoconferência à Polícia Federal após intimação determinada pelo ministro Alexandre de Moraes no âmbito do Inquérito das Fake News (nº 4.781). Cabral havia feito críticas públicas à condução das investigações relacionadas a supostos vazamentos de dados.

Entidades representativas de carreiras típicas de Estado divulgaram manifestações em defesa do devido processo legal e da liberdade de expressão. O episódio adiciona novo componente institucional a um caso que, nesta virada de semana, deixou de ser apenas financeiro.