Vorcaro dará dois depoimentos na próxima semana

Novos desdobramentos , com operações da PF e troca de relator no STF agregam novos ingredientes à crise

Por Beatriz Matos

Daniel Vorcaro depõe no Congresso na segunda e terça-feiras

A próxima semana deve ser, ou ao menos promete ser, esclarecedora no cerne das investigações que cercam a fraude bancária do Banco Master. Tudo isso porque Daniel Vorcaro vai ser ouvido pela primeira vez em duas comissões do Senado Federal. O banqueiro falará primeiro à CPMI do INSS, na segunda-feira (23), e no dia seguinte à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. A ordem dos depoimentos não é casual: a CPI quis ouvi-lo antes da comissão técnica para evitar que o discurso fosse previamente calibrado.

No centro das oitivas estão mais de 250 mil contratos de empréstimos consignados sob suspeita de irregularidades, pois estes descontos teriam sido realizados sem autorização de aposentados e pensionistas. A CPMI quer saber quem autorizou, quem operou e se haverá ressarcimento.

Recentemente, o Correio da Manhã revelou, com exclusividade, histórias de vítimas dos falsos consignados. Professores da rede pública denunciaram descontos de empréstimos que afirmam nunca ter autorizado, numa operação que parece ter sido coordenada pelo sócio de Vorcaro, Augusto Lima, após comprar do governo da Bahia o CredCesta.

As vítimas aparecem como devedoras de contratos que variam entre R$ 1,6 mil e quase R$ 10 mil, com saldo devedor, número de parcelas e status de adimplência registrados normalmente nos sistemas. Os relatos apontam valores padronizados e que causam impacto direto no score de crédito destas pessoas que, agora, estão com nome sujo na praça e não conseguem adquirir empréstimos.

Enquanto isso, no Supremo Tribunal Federal (STF), a troca de relatoria com a saída de Dias Toffoli e a entrada de André Mendonça, foi recebida com expectativa. Mendonça já sinalizou que a Polícia Federal terá “carta branca” nas apurações. Agora, André Mendonça só está aguardando um novo relatório da Polícia Federal (PF), que deve acontecer até a próxima semana, para começar a tomar as primeiras decisões do caso.

Festas e influência

O escândalo vai além dos consignados. O Ministério Público junto ao TCU pediu investigação sobre autoridades que teriam participado de eventos promovidos por Vorcaro, como o “Cine Trancoso”, na Bahia. A investigação busca identificar a extensão do círculo de relações políticas e institucionais do banqueiro.

As festas passaram a integrar o radar das investigações à medida que se busca mapear o círculo de relações do banqueiro. No núcleo baiano, o nome de Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, também reaparece, especialmente pela ligação com a CredCesta e os desdobramentos envolvendo os falsos consignados do Master.

Estratégia jurídica

A expectativa em torno do depoimento de Daniel Vorcaro cresce na mesma proporção em que avançam as frentes de investigação sobre o colapso do Banco Master. O caso deixou de ser apenas um escândalo financeiro para se tornar uma crise institucional que atravessa o sistema bancário, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF). Com operações da Polícia Federal (PF) em curso, troca de relatoria no STF e a instalação de um grupo de trabalho no Senado, o banqueiro passa a ocupar o centro de uma engrenagem política e jurídica que pode redefinir os rumos das apurações.

Segundo o jurista e cientista político Melillo do Nascimento, o ambiente das audiências altera o jogo.

“Depoimentos em estruturas e espaços onde a política é maior do que o direito, como numa CPI e como uma Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, tendem a oferecer uma outra abordagem”, afirma.

De acordo com ele, a análise é de que Vorcaro vem se preparando com seus advogados para ampliar parcialmente os temas abordados, numa tentativa de reduzir o alcance das acusações.

O jurista também aponta três cenários possíveis: colaboração estratégica, deslizes que abram novas frentes ou pura espetacularização.

“Eu creio também que haverá nesse processo de diálogo e de presença, tanto na CPI como na CAE, uma espetacularização, som e fúria, como diz o bardo inglês, de gente que vai estar tentando muito mais do que contribuir com a investigação”, diz, referindo-se à frase de Shakespeare, da peça Machbeth: “Som e fúria que nada significam”.

A diferença central está no alcance institucional. “No caso da CPI, ela tem poderes de investigação, como tem o judiciário.” Já a CAE tem limitações regimentais.