Sem ser submisso, Lula tenta manter proximidade com Trump
Presidente sugere mudanças no Conselho da Paz e combina viagem aos EUA
Nesta segunda-feira (26), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou com o presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump (Republicano), por telefone, para alinharem pautas de interesses entre os dois países.
Na conversa, que segundo uma nota oficial divulgada pelo Palácio do Planalto ocorreu no período da manhã e durou cinquenta minutos, Lula não negou o convite dos Estados Unidos para englobar o “Conselho da Paz” proposto por Trump. Porém, pediu ao presidente dos EUA algumas mudanças para vir a aderir.
“Ao comentar o convite formulado ao Brasil para que participe do Conselho da Paz, Lula propôs que o órgão apresentado pelos Estados Unidos se limite à questão de Gaza e preveja assento para a Palestina. Nesse contexto, reiterou a importância de uma reforma abrangente das Organização das Nações Unidas [ONU], que inclua a ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança”, confirmou o Planalto, por meio de nota.
Ao final da conversa, o brasileiro confirmou que pretende viajar para Washington D.C. para se encontrar com Donald Trump. Ainda não há uma data definida para a viagem para os EUA, mas a expectativa é que o petista embarque para solo norte-americano após viajar para a Índia e a Coreia do Sul, em fevereiro.
Nesta terça-feira (27) o presidente brasileiro embarca para o Panamá para participar do Foro Econômico Internacional da América Latina e Caribe, organizado pela CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe). O evento está previsto para acontecer até esta quinta-feira (29).
Sinalização
O presidente dos Estados Unidos lançou oficialmente o “Conselho de Paz de Gaza” na última quinta-feira (22) e convidou 56 países para integrar o grupo, excluindo representantes da Palestina. Apesar do conselho, na teoria, ser fundado para tratar do conflito entre Israel e a Faixa de Gaza, a atuação visa expandir seu poder para outros conflitos ao redor do mundo – um dos motivos de Lula ter solicitado a inclusão de representantes palestinos e que o grupo foque exclusivamente no conflito na Faixa de Gaza. Além disso, o plano inicial é que Trump seja o presidente vitalício do conselho, independentemente dele seguir como presidente dos EUA ou não.
Para o Correio da Manhã, o professor de relações internacionais do Ibmec Brasília Frederico Dias reiterou que “a sinalização de Lula deve ser interpretada como uma tática de negociação, e não como uma garantia de aceitação” ao convite para o Brasil participar do Conselho criado por Trump.
“A diplomacia brasileira, ao apresentar itens que descaracterizam a proposta original, está, na verdade, testando a flexibilidade de Washington e ganhando tempo. É uma postura propositiva, de engajamento. Caso as sugestões sejam integralmente aceitas, o Conselho da Paz resultaria em algo muito diferente da concepção original de Trump, afirmando um pragmatismo multilateral inclusivo mais próximo dos princípios de política externa do Brasil. A diplomacia brasileira vê com preocupação a criação de estruturas paralelas à ONU como uma degradação do multilateralismo”, destacou o professor.
A reportagem também questionou o mestre e doutor em Direito Constitucional Rubens Beçak, que avaliou que a sinalização do chefe de Estado brasileiro sobre o conselho proposto pro Trump é mais do que apenas uma “saída polida” orientada pelo Itamaraty.
“Acredito que é mais do que uma saída polida. Ela é feita de forma polida, mas o presidente Trump aceitando [as condições], indica uma aproximação real, que já foi sinalizada entre os dois dignatários que pode fazer muito bem para a projeção e para a pretensão internacional do Brasil, já manifestada de muito tempo. O Brasil tem sempre esta pretensão, em algumas presidências mais exacerbadas e em outras menos, de ser um agente mais relevante para além do que já é no plano internacional”, enfatizou Beçak ao Correio da Manhã.
Retaliações
Para a reportagem, a internacionalista e especialista em Comércio Internacional na BMJ Consultores Associados Ana Beatriz Zanuni ainda completou que, ainda que as solicitações do Brasil “não sejam aceitas, o Brasil pode buscar contornar o convite com uma saída diplomática”. Na avaliação dela, é possível as tratativas continuarem, sem o Brasil sofrer retaliações.
“Mesmo com essa possibilidade, neste momento, não se observa um risco de retaliações pelos Estados Unidos. As expectativas, por outro lado, são de que o encontro viabilize anúncios concretos em relação às negociações sobre as tarifas e outras cooperações bilaterais”, afirmou a internacionalista.
Risco eleitoral
Para além de possíveis novas tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, há o questionamento se o governo norte-americano poderia interferir nas eleições presidenciais brasileiras para este ano.
O doutor em Direito Constitucional Rubens Beçak citou que o presidente Lula é “um animal político”. Ou seja, “ele sempre que está agindo, seja no plano nacional ou no plano internacional, pensando os possíveis reflexos” futuros – o que não quer dizer que ele acerte sempre.
Na mesma linha de Zanuni, a advogada especialista em direito internacional Hanna Gomes reiterou para o Correio da Manhã que, ao “buscar um encontro presencial e a manutenção do diálogo com Trump”, o presidente brasileiro visa “blindar a economia e a política externa de sobressaltos em ano eleitoral e transparecer que está em bons termos com o presidente americano”.
“Lula sabe que qualquer nova sanção comercial ou retaliação diplomática de Trump pode ser usada pela oposição como indício de isolamento internacional ou incompetência diplomática”, ela ponderou para a reportagem.
E, em recortes nacionais, o professor de Relações Internacionais Frederico Dias disse que o convite de Trump para o Conselho “poderia funcionar como uma armadilha política para Lula”.
“Se [Lula] dissesse simplesmente um sim ao convite, sua base de esquerda veria isso como uma indesejada submissão aos EUA. Por outro lado, uma negativa direta poderia gerar descontentamento do presidente estadunidense e estimulá-lo a reativar o tarifaço comercial sobre produtos do Brasil ou mesmo o suporte mais explícito à oposição no Brasil”, ele avaliou.
E justamente por isso, ao confirmar uma visita a Trump, o governo brasileiro “mantém abertos os canais de comunicação e reafirma a disposição de Lula de colocar o Brasil como parte da solução para a crise”.
