Tarcísio adia visita a Bolsonaro para não descartar candidatura

Para analistas, declaração de Flávio na véspera desestimulou governador

Por Gabriela Gallo

Visita forçaria uma definição desde já de Tarcísio

A visita do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na Papudinha, sala de Estado Maior do 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, foi adiada e ainda não tem uma nova data.

Após conseguir a autorização do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes para visitar Bolsonaro nesta quinta-feira (22), Tarcísio voltou atrás e comunicou, na noite desta terça-feira (20), que não conseguiria ir devido a compromissos em sua agenda, segundo o Palácio dos Bandeirantes. Apesar de ser essa a justificativa formal, especula-se que, na verdade, ele tenha adiado uma situação que o obrigaria a definir já agora seu posicionamento quanto à corrida eleitoral de 2026.

Isso porque, no mesmo dia em que Moraes autorizou a visita de Tarcísio a Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse que as eleições presidenciais estariam “descartadas” para o governador de São Paulo.

“Tarcísio vai ouvir da boca de Bolsonaro que está fazendo um grande trabalho como governador de São Paulo e que sua reeleição é fundamental para a estratégia nacional de derrotar o PT”, disse o senador em entrevista ao O Globo. Horas depois da declaração de Flávio, Tarcísio comunicou que o encontro teria que ser adiado.

Flávio foi ungido o candidato da família Bolsonaro a partir de um texto escrito a mão exibido pelo senador no dia de Natal. A declaração de Flávio teria tido o propósito de forçar esse posicionamento após a visita de Tarcísio.

Momento de definição

Ao Correio da Manhã professor de políticas públicas do Ibmec Brasília Arthur Wittenberg avalia que é possível que a agenda do governador seja “de fato, o motivo imediato”. Todavia, ele completou que o contexto político “ajuda a explicar melhor a decisão”.

“As recentes declarações públicas do senador Flávio Bolsonaro elevaram o custo político do encontro ao antecipar expectativas de um apoio explícito à estratégia presidencial da família para 2026. A partir daí, a visita deixou de ser apenas um gesto pessoal e passou a ser interpretada como um momento de definição política”, reiterou Wittenberg.

A reportagem ainda conversou com o professor de ciência política do Ibmec Brasília Leandro Gabiati, que também avalia que a declaração de Flávio deve ter motivado esse recuo de Tarcísio.

“Quando Flávio Bolsonaro já corta de vez, provavelmente com a anuência do próprio Jair, qualquer possibilidade dele dar apoio a Tarcísio, talvez o momento não seja oportuno para Tarcísio conversar [com Bolsonaro]. Porque ele estaria se expondo e se desgastando, uma vez que os Bolsonaros viriam a público dizer que a candidatura de Flávio está mantida e que Jair pediu para o Tarcísio disputar a governança”, afirmou Gabiati ao Correio.

Eleições

Apesar de não ter anunciado publicamente sua candidatura para presidência nas eleições de 2026, a visita de Tarcísio ao ex-presidente levantava a especulação se o governador receberia uma “benção” de Bolsonaro para a disputa pelo Palácio do Planalto ou se Bolsonaro conversaria com Tarcísio para que ele concorra à reeleição do governo de São Paulo e o principal representante da direita seja Flávio Bolsonaro.

“Do ponto de vista do governador, havia o risco de que o encontro se transformasse em um ultimato: ou assumir publicamente um alinhamento imediato ao projeto presidencial de Flávio Bolsonaro, ou enfrentar ruídos internos no campo conservador. Ao adiar a visita, Tarcísio evita ser empurrado a uma definição precoce e preserva margem de manobra em um cenário ainda em aberto”, reiterou o professor de políticas públicas Arthur Wittenberg.

Reorganização

Na avaliação do advogado especialista em direito eleitoral Newton Lins, considerando que a indicação de Flávio Bolsonaro seja mantida para disputar a presidência, “a direita deverá passar por um processo de reorganização”, especialmente para cativar eleitores do centrão.

“Apesar do peso do sobrenome, Flávio enfrenta resistências, especialmente entre eleitores evangélicos. Esse cenário foi agravado após a articulação entre Tarcísio e Michelle Bolsonaro em torno da tentativa de transferência do ex-presidente para prisão domiciliar, iniciativa que culminou na remoção de Bolsonaro para o Complexo da Papuda, medida vista por aliados como um possível passo intermediário rumo à domiciliar”, ponderou o advogado eleitoral. “Se Bolsonaro confirmar Flávio como seu representante, a direita, que enxergava em Tarcísio o nome mais competitivo, terá de redefinir sua estratégia, uma vez que pesquisas apontam que o capital eleitoral do governador não se transfere automaticamente ao senador”, reiterou Lins.