Mercosul e União Europeia assinam acordo histórico

Negociações levaram mais de 25 anos. Encontro com Ursula no Rio reforçou protagonismo brasileiro

Por Beatriz Matos

Lula não participou da cerimônia de assinatura do acordo

A assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, neste sábado (17), foi antecedida por uma ofensiva diplomática decisiva conduzida pelo Brasil. Na sexta-feira (16), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu, no Rio de Janeiro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em um movimento visto como estratégico para consolidar o papel brasileiro como principal articulador político do tratado, negociado ao longo de mais de 25 anos.

No dia seguinte, o acordo foi formalmente assinado sob aplausos no Grande Teatro José Asunción Flores, em Assunção, no Paraguai — local simbólico onde o tratado fundador do Mercosul foi firmado em 1991.

Articulação brasileira

Lula foi o único chefe de Estado ausente da cerimônia. O governo brasileiro alegou incompatibilidade de agenda, embora o presidente não tivesse compromissos oficiais na agenda de sábado.

Nos bastidores, a avaliação é de que o relacionamento estremecido com o presidente argentino Javier Milei pesou na decisão de evitar dividir o palanque. Ainda assim, líderes do bloco reconheceram o protagonismo do presidente brasileiro nas negociações.

Anfitrião do encontro e presidente pro tempore do Mercosul, Santiago Peña classificou o tratado como um “feito histórico” e afirmou que o acordo envia uma mensagem clara em favor do comércio internacional, do diálogo e da cooperação entre os países. Ao fim da cerimônia, disse que a ausência de Lula deixou um “sabor amargo”, mas reconheceu a liderança brasileira no processo.

Discursos e recados

Representando o Brasil, o chanceler Mauro Vieira afirmou que o acordo fortalece a democracia e o multilateralismo. “O acordo representa um baluarte erguido com sólida convicção no valor da democracia e da ordem multilateral, diante de um mundo batido pela imprevisibilidade, protecionismo e coerção”, declarou.

Sem citar diretamente a política tarifária americana, Ursula von der Leyen destacou que os dois blocos optaram pela integração. “Nós escolhemos comércio justo no lugar de tarifas. Nós escolhemos uma parceria longa e produtiva no lugar do isolamento”, afirmou. Já Milei usou o discurso para elogiar o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump e atacar o presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Dimensão econômica

O tratado reúne 31 países e tem potencial para alcançar cerca de 720 milhões de consumidores. O texto prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas em mais de 90% do comércio entre os blocos, além de regras comuns para bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios, criando a maior zona de livre comércio do mundo.

Para Ricardo Caichiolo, professor de direito internacional e diretor do Ibmec Brasília, o acordo tem peso econômico e geopolítico expressivo.

Segundo o especialista “o acordo entre Mercosul e União Europeia representa a consolidação de uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, integrando um mercado de cerca de 700 milhões de consumidores e quase um quarto do PIB global. Do ponto de vista geopolítico, ele serve como um contrapeso estratégico à hegemonia comercial de Estados Unidos e China.”

Na avaliação do especialista, a Europa busca garantir acesso a recursos naturais e energia limpa, enquanto o Mercosul ganha credibilidade internacional capaz de atrair investimentos estrangeiros e impulsionar a modernização da infraestrutura regional.

Setores sensíveis

Ainda segundo Ricardo Caichiolo, os impactos econômicos tendem a ser assimétricos entre os setores produtivos. “No curto e médio prazo, o agronegócio brasileiro é o vencedor imediato, com destaque para os setores de carne bovina, aves, açúcar e suco de laranja. Em contrapartida, alguns segmentos da indústria, como o automotivo, enfrentará uma pressão competitiva intensa de produtos europeus tecnologicamente mais avançados.”

Outros segmentos considerados sensíveis, como vinhos e laticínios, também devem enfrentar dificuldades com a abertura gradual do mercado.

Resistências e ratificação

Apesar da assinatura, o acordo ainda não entra em vigor. O texto precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos Congressos nacionais dos países do Mercosul. Dentro da União Europeia, França, Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia votaram contra o tratado, citando riscos ao setor agrícola. A Bélgica se absteve.

Sobre esse ponto, o especialista Ricardo Caichiolo avalia que o caminho institucional será longo e politicamente sensível. “Apesar do avanço diplomático, o processo de ratificação enfrenta obstáculos severos, centrados principalmente na resistência de lobbies agrícolas europeus, com destaque para a França e a Irlanda, que temem a competitividade da proteína animal e dos grãos sul-americanos.”

Há ainda tentativas de levar os termos do acordo ao Tribunal de Justiça da União Europeia, o que pode atrasar a implementação das novas regras comerciais. Enquanto isso, os blocos discutem a aplicação provisória de partes do tratado, sobretudo as relacionadas à redução tarifária.

Mensagem política

Na avaliação de Ricardo Caichiolo, o acordo vai além do comércio e carrega um recado político claro em um cenário internacional marcado pelo protecionismo. “Em uma conjuntura global marcada pelo protecionismo e pela erosão dos mecanismos da OMC, este acordo envia uma mensagem clara em defesa do multilateralismo.”

A leitura predominante é de que a movimentação diplomática liderada por Lula às vésperas da assinatura reforçou o papel do Brasil como eixo político do Mercosul — protagonismo que agora será testado no longo processo de ratificação do tratado.