Lula liga para Putin para conversar sobre Venezuela

Líderes criticaram ações dos EUA. Ao Correio, especialista detalha estratégia diplomática

Por Gabriela Gallo

Conversa com Putin mostra esforço de Lula na mediação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou, por telefone, com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, nesta quarta-feira (14).

De acordo com uma nota oficial do Palácio do Planalto, a reunião aconteceu para que os líderes tratassem dos “preparativos para a realização da 8ª. Comissão Bilateral de Alto Nível Brasil – Rússia (CAN), no próximo dia 5 de fevereiro”.

Porém, na ligação, os chefes de Estado também trataram de outros assuntos de interesse entre as nações. Dentre eles, o conflito entre a Venezuela e os Estados Unidos da América (EUA) e o sequestro de Nicolás Maduro pelo governo dos EUA.

De acordo com o Kremlin, ambos os presidentes “enfatizaram as abordagens fundamentais compartilhadas pela Rússia e pelo Brasil em relação à garantia da soberania estatal e dos interesses nacionais da República Bolivariana”.

“[Ambos] concordaram em continuar coordenando esforços, inclusive no âmbito da ONU e por meio do BRICS, para reduzir a tensão na América Latina e em outras regiões”, declarou, em nota, o governo russo.

Na mesma linha, o Palácio do Planalto reiterou que os presidentes “manifestaram preocupação com a situação da Venezuela e reiteraram a importância de que a América do Sul e o Caribe sigam como zonas de paz”.

“Defenderam o papel dos países do BRICS para fortalecimento das instituições de governança global, em especial as Nações Unidas e seu Conselho de Segurança”, destacou o governo brasileiro.

Diplomacia

Desde que os Estados Unidos invadiram a Venezuela e levaram o então presidente Nicolás Maduro para ser julgado em solo estadunidense no começo do ano, o Brasil e a Rússia se manifestaram críticos e contrários à ação.

Na época, a Rússia julgou o caso como um “ato de agressão armada” contra a Venezuela. Já o presidente Lula disse ser “uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.

Ao Correio da Manhã, a advogada especialista em direito internacional Hanna Gomes detalhou que o contato entre os países marca “um ponto crítico para a diplomacia brasileira, especialmente diante do cenário de tensão internacional após a incursão militar dos Estados Unidos na Venezuela”.

Segundo a internacionalista, a iniciativa do Brasil em contatar a Rússia, ainda que inicialmente não tenha sido exclusivamente para falar da Venezuela, sinaliza uma tentativa de manter o Brasil “no papel de mediador global”.

“Ao buscar Putin, Lula reforça que a solução para crises no continente não deve ser unilateral. A menção ao uso do BRICS e da ONU como fóruns de coordenação mostra que o Brasil vê nesses blocos um contrapeso institucional importante à ação direta dos EUA. Essa pretensão de convergência com a Rússia em ‘garantir a soberania estatal’ pode servir para blindar a região contra intervenções futuras”, detalhou Hanna.

“Embora o governo brasileiro estivesse em um processo de reaproximação com Donald Trump, essa conversa sinaliza que o Brasil não aceitará o uso da força em seu entorno imediato sem protestos, mesmo que isso custe capital político com a Casa Branca. O Brasil deve apoiar resoluções que condenem o uso da força e exijam a apresentação de provas de vida e garantias de direitos para Maduro. A ideia é isolar a ação americana como uma violação do Direito Internacional”, completou a advogada.