Pesquisa recoloca Tarcísio no páreo da direita
Levantamento do Instituto Ideia expõe fragilidade de Flávio e embaralha jogo
A nova rodada da pesquisa do Instituto Ideia, divulgada nesta terça-feira (13), redesenhou o tabuleiro da direita para a eleição presidencial de 2026.
Os dados indicam uma perda de tração da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e reposicionam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como o único nome do campo conservador tecnicamente competitivo em um eventual segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O levantamento ouviu 2.000 eleitores entre os dias 8 e 12 de janeiro, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais.
No cenário estimulado de segundo turno, Tarcísio aparece empatado tecnicamente com Lula, enquanto Flávio apresenta desempenho inferior, reforçando a leitura de que sua candidatura ainda não se consolidou como projeto eleitoral viável. Segundo a pesquisa, Lula teria 44.4% contra 42,1% de Tarcísio num eventual segundo turno entre os dois. Contra Flávio Bolsonaro, Lula teria 46% e o senador, 36%.
A pesquisa também revela um dado sensível para a direita: a rejeição ao sobrenome Bolsonaro permanece elevada, o que limita a capacidade de expansão do voto para além do núcleo mais fiel do bolsonarismo.
Candidatura murcha
Para o professor Eduardo Galvão, especialista em políticas públicas, Flávio Bolsonaro atua hoje menos como uma candidatura estruturada e mais como um ativo estratégico dentro do campo conservador.
“Flávio hoje é menos candidatura consolidada e mais ativo estratégico: mede força do bolsonarismo e organiza negociação na direita”, avalia. Segundo ele, para que o senador avance de fato como candidato, seriam necessárias adesões formais relevantes, convergência do centrão e sinais claros de redução da rejeição entre eleitores independentes.
Sem esses movimentos, a candidatura tende a permanecer em estado de teste permanente, funcionando como instrumento de pressão e barganha, mas sem se transformar em um projeto eleitoral robusto.
Tarcísio no centro
Os números da pesquisa reforçam a posição de Tarcísio de Freitas. Mesmo sendo “escanteado” por setores do bolsonarismo, o governador aparece como o nome mais competitivo da direita.
Galvão observa que o desempenho de Flávio, paradoxalmente, acaba beneficiando Tarcísio. “Impacta menos como ameaça e mais como reposicionamento de incentivos. Tarcísio fica confortável: pode entregar apoio pesado a um nome do campo e preservar seu principal ativo, que é a reeleição com baixa tensão”, diz.
Na avaliação do especialista, o governador não tem pressa para entrar na disputa presidencial e pode atuar como fiador de uma composição vencedora, mantendo margem de manobra política.
Michelle em cena
O cenário ganhou novos contornos nesta semana após Michelle Bolsonaro publicar um vídeo de Tarcísio com críticas à política econômica do governo federal. A postagem foi interpretada por aliados como um sinal de endosso ao governador e gerou desconforto entre os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. O gesto ocorreu horas depois da divulgação da pesquisa, que reforçou Tarcísio como único nome da direita capaz de enfrentar Lula em condições de equilíbrio.
Nos bastidores, aliados de Michelle afirmam que ela não deseja confronto direto com os enteados, mas reconhecem que sua movimentação amplia a disputa interna no bolsonarismo. Embora haja defensores de seu nome como vice em uma eventual chapa, a ex-primeira-dama tem sinalizado disposição para concorrer ao Senado pelo Distrito Federal.
Disputa aberta
O levantamento do Ideia mostra ainda que a eleição de 2026 tende a ser decidida por margens estreitas, com alto grau de polarização e elevado índice de rejeição entre os principais nomes. Galvão alerta que, no primeiro turno, uma candidatura de Flávio pode reforçar a lógica binária “nós contra eles”, favorecendo Lula. Já no segundo turno, o risco para o presidente cresce se a direita conseguir unificar discurso e reduzir o custo da rejeição, sem transformar a disputa em um novo plebiscito sobre Bolsonaro.
Esse ambiente de incerteza política se soma a uma semana marcada por tensões institucionais em Brasília, evidenciadas pela reunião entre Banco Central e Tribunal de Contas da União sobre o caso da liquidação do Banco Master. O episódio expôs disputas de poder entre órgãos de Estado e reforçou a percepção de instabilidade decisória — um pano de fundo que ajuda a explicar por que, também no campo eleitoral, a direita segue fragmentada, sem um comando claro e com o jogo sucessório ainda em aberto.
