Decisão nos EUA consolida liquidação do Banco Master

Banco Central ganha reforço enquanto Vorcaro, dono do Master, tenta abrir rodada de negociações no STF.

Por Beatriz Matos

Master tenta negociar sua situação

A decisão da Justiça dos Estados Unidos que reconheceu a liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central (BC), produziu efeitos que vão além do bloqueio imediato das operações da instituição em solo norte-americano.

Ao conferir validade internacional ao processo conduzido no Brasil, o Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida consolidou o alcance da liquidação e fortaleceu a posição institucional do Banco Central diante de questionamentos internos que vinham sendo levantados em Brasília.

Na prática, a decisão impõe um bloqueio operacional completo ao Master nos Estados Unidos. A instituição perde o controle sobre eventuais ativos no país, fica impedida de abrir contas, realizar transferências ou vender bens, e tem suspensos processos judiciais e execuções de dívidas em curso. Os ativos permanecem congelados, sob supervisão do liquidante, com vistas à proteção dos credores.

Segundo o advogado Bruno Boris, sócio fundador do escritório Bruno Boris Advogados, o reconhecimento internacional “revalida a decisão de liquidação do banco proferida pelo BC e permite ao liquidante apurar todos os ativos que existam fora do Brasil, inclusive nos Estados Unidos, relacionados ao Banco Master e a eventuais empresas controladas”. De acordo com ele, esses recursos podem ser utilizados para indenizar credores tanto no Brasil quanto no exterior.

Efeito externo

O aval da Justiça americana foi bem recebido no governo federal e no Supremo Tribunal Federal (STF), sobretudo por ocorrer em meio a investidas do Tribunal de Contas da União (TCU) que colocavam em dúvida a condução do processo de liquidação. Nos bastidores, ministros do Supremo avaliaram como indevida a tentativa do ministro do TCU Jhonatan de Jesus de realizar uma inspeção direta nos autos do Banco Central.

Pressionado pela repercussão institucional do caso, o ministro decidiu submeter o tema ao plenário do TCU, que retoma os trabalhos após o recesso em 16 de janeiro. A leitura predominante entre integrantes do Judiciário é de que uma eventual revisão da liquidação poderia gerar insegurança jurídica e até prejuízos aos cofres públicos.

Para Bruno Boris, o reconhecimento da liquidação no exterior também reforça a autoridade do Banco Central frente a outros órgãos. “A decisão nos Estados Unidos dá validade ao pedido do liquidante em outro país, no interesse dos credores, e convalida a posição do Banco Central”, afirmou.

Disputa

Paralelamente, o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, apresentou ao Supremo um pedido de abertura de processo de conciliação envolvendo o Banco Central, representantes do Ministério Público, do TCU e da Fictor Financeira, que havia demonstrado interesse na aquisição da instituição. O pedido, no entanto, não busca reverter a liquidação, mas demonstrar que o banco teria condições de honrar compromissos com investidores. A análise cabe ao relator Dias Toffoli.

Enquanto isso, a Polícia Federal (PF) avança em investigações paralelas. A corporação traçou uma linha do tempo de publicações de influenciadores digitais contrárias ao Banco Central, entre 9 de dezembro e 6 de janeiro, que teriam sido financiadas no âmbito do chamado “Projeto DV”. Segundo investigadores, cerca de 46 perfis podem ter sido contratados, com valores que chegaram a R$ 2 milhões por contrato, para disseminar informações falsas em defesa do Master.

A PF também apura possíveis fraudes em carteiras de crédito negociadas entre o Banco Master e o Banco de Brasilia (BRB), que podem ter gerado prejuízo superior a R$ 4,5 bilhões. A defesa de Daniel Vorcaro afirma que ele tem colaborado com as investigações e que vem sendo alvo de ataques à sua reputação.

Do ponto de vista do sistema financeiro, a decisão da Justiça americana é interpretada como um sinal de estabilidade institucional. “A decisão nos Estados Unidos convalida a posição do Banco Central e é importante em termos de segurança jurídica”, destacou Bruno Boris. Para o mercado, o episódio reforça a mensagem de que atos típicos de regulação bancária seguem protegidos por marcos legais sólidos, inclusive no plano internacional.