Acordo Mercosul/União Europeia pode mudar jogo no Brasil
Tratado deve entrar em vigor ainda este ano e amplia acesso a mercados, reduz vulnerabilidades externas e fortalece a agenda internacional do Planalto
O avanço do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, após o aval dos países europeus, reposiciona o Brasil no centro das articulações econômicas globais em um momento de forte instabilidade internacional.
Mais do que a conclusão de um tratado negociado por mais de 25 anos, o pacto reforça a estratégia política do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de apresentar o país como defensor do multilateralismo, da previsibilidade econômica e da cooperação internacional — narrativa com peso especial em ano eleitoral.
O acordo envolve um mercado de mais de 700 milhões de consumidores e prevê a eliminação gradual de tarifas e a redução de barreiras comerciais entre os dois blocos. Para o Planalto, o avanço do tratado funciona como ativo diplomático e econômico, sobretudo diante da retomada de políticas protecionistas e da escalada de tensões comerciais lideradas pelos Estados Unidos.
Ganho político
Na avaliação do advogado e especialista em comércio internacional Fabrício Bertini Pasquot Polido, o acordo tem peso simbólico e estratégico para o Mercosul. “Politicamente, o acordo pode ser visto como a principal âncora externa do Mercosul em suas relações comerciais bilaterais dentro de seu processo de integração desde 1991”, afirma. Segundo ele, o tratado sinaliza relevância do bloco em um contexto de perda de protagonismo econômico relativo e de questionamentos internos sobre sua utilidade.
O especialista destaca que a aproximação com a União Europeia se dá em meio às incertezas provocadas pelas ações unilaterais dos Estados Unidos. “A política ‘elástica’ do sobretarifaço ao longo de 2025 provou sofrer idas e vindas, com o objetivo de pressionar politicamente governos das Américas”, diz. Para o especialista, a diversificação de parceiros comerciais é uma resposta direta a esse ambiente, reduzindo a dependência de EUA e China.
Setores beneficiados
No campo econômico, os primeiros impactos devem ser sentidos no agronegócio. O advogado Fabrício Bertini aponta que “os segmentos do agronegócio no Brasil que mais se beneficiam de forma imediata” incluem exportadores de carne bovina, suína e de frango de alta qualidade, além das cadeias de soja, milho, açúcar, etanol, café e suco de laranja. Segundo ele, esses setores ganham acesso tarifário mais favorável e maior previsibilidade regulatória, ainda que em alguns casos por meio de cotas e reduções graduais.
Durante coletiva, o vice-presidente Geraldo Alckmin reforçou o peso econômico da União Europeia para o Brasil ao lembrar que a corrente de comércio entre os dois chegou a US$ 100,1 bilhões no último ano, tornando o bloco o segundo maior parceiro comercial do país. Alckmin destacou ainda que 30% dos exportadores brasileiros vendem para o mercado europeu, cerca de 9 mil empresas responsáveis por mais de 3 milhões de empregos, além de a UE figurar como principal ou segundo destino das exportações de 22 estados brasileiros.
Mais baratos
O acordo entre Mercosul e União Europeia também deve ter impacto direto no bolso do consumidor brasileiro ao longo dos próximos anos.
Com a redução gradual ou eliminação de tarifas de importação sobre uma ampla lista de produtos, alguns itens importados da Europa podem começar a chegar mais baratos às prateleiras nacionais. Entre os que devem sofrer queda de preços estão azeite de oliva, chocolates, queijos e vinhos, hoje sujeitos a tarifas elevadas. A liberalização não será imediata: os prazos variam conforme o tipo de mercadoria, com cronogramas que podem se estender por quase uma década ou mais, dependendo do produto e das cotas negociadas.
Pressão externa
O acordo também carrega forte dimensão geopolítica. Para o professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ, Leonardo Paz, o tratado vai na contramão da tendência global de fechamento comercial. “O mundo vem numa tendência de protecionismo, de redução de acordos, pelo menos desde 2016”, afirma. Segundo ele, o pacto entre Mercosul e União Europeia representa “um grande passo contra essa tendência”, ainda que não seja suficiente para revertê-la por completo.
Leonardo Paz avalia que o acordo amplia a resiliência econômica do Brasil diante de choques externos. “Um Brasil com melhor acesso ao mercado europeu sofreria muito menos se enfrentasse novas tarifas do governo Trump, conseguindo deslocar melhor suas exportações”, explica. Para o professor, ao diversificar mercados, o país reduz a vulnerabilidade a decisões unilaterais e enfraquece o poder de barganha dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, o tratado reforça compromissos ambientais, tema sensível nas negociações. O professor Leonardo reconhece que exigências relacionadas ao desmatamento e à proteção de populações tradicionais podem elevar custos, mas avalia que o saldo tende a ser positivo. “Você facilita ganhar certificações e isso vai abrindo mercados internacionais. Naturalmente, incrementa um pouco o custo, mas o saldo tende a ser positivo”, afirma.
Em um cenário global marcado por conflitos, guerras tarifárias e incertezas geopolíticas, o acordo Mercosul-União Europeia permite ao governo Lula apresentar resultados concretos de sua política externa. Mais do que ganhos comerciais, o tratado oferece ao Planalto um discurso político consistente: o de que o Brasil aposta no comércio com regras, na cooperação internacional e na abertura de mercados como resposta ao avanço do protecionismo.
