Quando era prefeito de Maricá, o hoje deputado Washington Quaquá (PT-RJ) conta que fez questão de ter em seu secretariado um evangélico, um umbandista e um católico. Estava assim, segundo ele, espiritualmente cercado por todos os lados. Um colega de partido, então, criticou-o pela atitude. "Mas a prefeitura tem que ser laica", retrucou. "Meu amigo, na favela onde eu nasci, Laica é nome de cachorro", respondeu Quaquá.
Em tempo, laica é a política que mantém afastada a religião das suas decisões. E Laika, com k, é o nome da cadela que a extinta União Soviética enviou para o espaço em 1954. Seguidor de Karl Marx e dos preceitos do comunismo, Quaquá é assim um admirador dos feitos soviéticos. Mas, ao mesmo tempo, declara-se um político pragmático. E, nesse sentido, para ele, é algo impossível no Brasil não haver essa mistura entre religião e política.
"Sou um marxista de esquerda. E, se eu sou marxista, sou materialista. E, portanto, apegado à realidade", disse ele, em conversa com o Correio da Manhã. Para Quaquá, há hoje em seu partido algumas pessoas que estabeleceram determinados dogmas, situações ideais, que fogem da realidade. "Não dá para fazer política apegado a dogma. Dogma é conceito de religião. Eu me apego no material. Na realidade. E a realidade me obriga, e obriga ao PT, e obriga ao governo, se unir ao centro", afirma ele.
Por conta desse tipo de discurso pragmático, Quaquá vem provocando incômodos em seu partido. Vice-presidente do PT, sua posição com alguma frequência vai na contramão de certos posicionamentos da presidente da legenda, a deputada Gleisi Hoffmann (PR) e do que a cartilha tradicional deveria esperar de um parlamentar de esquerda.
Quaquá defende que o PT e o governo se aproximem do Centrão. Considera o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), um aliado indispensável. Prega que o governo deixe de fazer carga contra os clubes de tiro e a posse de armas. Busca aproximação com os segmentos evangélicos, com a Igreja Universal do Reino de Deus e com seu principal braço político, o Republicanos. Cita uma expressão do regime militar para designar como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria tocar o seu governo.
Ministra do Turismo
É nessa linha, portanto, que ele defende a manutenção de Daniela Carneiro no Ministério do Turismo. Na semana passada, Daniela pediu desfiliação do União Brasil, juntamente com seu marido, o prefeito de Belford Roxo, Waguinho Carneiro, e outros cinco deputados (Chiquinho Brazão, Juninho do Pneu, Marcos Soares, Ricardo Abrão e Dani Cunha). Com a desfiliação, o presidente do União Brasil, Luciano Bivar, está reivindicando o ministério de volta.
Para Quaquá, mais do que propriamente alguém da cota do União Brasil, Daniela deveria ser considerada alguém da cota de Waguinho. "Waguinho foi fundamental para Lula na Baixada Fluminense", argumenta. E faz, então, um raciocínio numérico: "O grupo de Waguinho tem sete deputados. É maior que a bancada do PCdoB, que tem seis deputados. Se o PCdoB merece um ministério, Waguinho merece mais".
A partir daí, Quaquá considera que a manutenção de Daniela pode ter outros propósitos. Um deles é ajudar a promover uma aproximação com o Republicanos, caso seja esse o destino do grupo. Recentemente, o Republicanos passou a fazer parte de um bloco com MDB e PSD que tem 142 deputados, e busca uma aproximação com o governo.
A partir daí, Quaquá imagina que se possa também buscar um contato com o governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro. "Ele quer se aproximar do governo", afirma. Segundo Quaquá, o que teria atrapalhado antes essa aproximação foi a candidatura de Marcelo Freixo (na época pelo PSB, hoje Freixo está no PT). "Mas grande parte da bancada do Cláudio já apoiava o governo".
E, finalmente, promover a aproximação junto ao meio evangélico. "Daniela é do Rio de Janeiro, principal porta de entrada do turismo no país. É mulher. É evangélica. É da Baixada Fluminense. Ela associa a seu favor todas essas coisas".
Sindicato dos deputados
Dentro da sua forma pragmática de enxergar a política, Quaquá defende de forma veemente Arthur Lira das críticas que sofre por parte da esquerda. "Nenhum outro presidente da Câmara teve a quantidade de apoio que teve Arthur Lira para se eleger. Não dá para ignorar isso", argumenta. "Eu fui um dos primeiros nomes do PT a defender publicamente o Lira. E continuo defendendo. Ele é e continuará sendo um grande presidente da Câmara para o Lula".
Para Quaquá, Arthur Lira é "uma espécie de presidente do Sindicato dos Parlamentares". E Lula depende dessa relação para viabilizar seus projetos. Como sindicalista que sempre foi, não pode ignorá-lo. "Mais do que cargos, o que motiva hoje o parlamentar é a emenda orçamentária", argumenta. E é Lira quem tem a chave desse cofre. Lira emergiu na política do grupo que chegou ao poder após a vitória de Eduardo Cunha na presidência da Câmara. Um nome odiado por boa parte do PT, por ter sido o principal responsável pelo processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. "Lira é o aperfeiçoamento de Eduardo Cunha", resume Quaquá.
"O governo não pode ter com Lira uma relação de desconfiança", prega o deputado. E é possível confiar em Arthur Lira, uma vez que ele foi aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro? "Claro que sim. Até porque ou é isso ou é o desastre", responde Quaquá.
Haddad
Assim como, para Quaquá, é igualmente um desastre as críticas que vem sofrendo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, por parte de pessoas do próprio PT. "As críticas a Haddad vindas do PT e da esquerda são um absurdo", critica Quaquá. Como condutor da política econômica do país, Haddad precisa dar certo, no entender do deputado. Porque o seu fracasso representará o fracasso do próprio governo. "Ou o Haddad se viabiliza ou estaremos todos mortos", sentencia.
"Lula não pode ser inviabilizado. Se Lula for inviabilizado, a esquerda perderá a sua referência", considera. E emenda uma frase do fim da ditadura militar, quando o governo do general Ernesto Geisel promoveu o processo de abertura política. "Lula tem de fazer da mesma forma. O seu caminho precisa ser lento, gradual e seguro".
"Não tenho voto no PTI"
Vice-presidente do PT, Quaquá foi criticado no início do ano porque tirou uma foto com o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que se elegeu deputado federal pelo PL do Rio de Janeiro. Houve quem quisesse levar o deputado ao conselho de ética do partido pela foto.
"Nasci na favela. Não tenho voto no PTI, o Partido dos Trabalhadores de Ipanema. Eu não estou aqui para falar com esse pessoal. Estou aqui para falar com o povo brasileiro. "Como alguém pode imaginar me colocar no conselho de ética do partido porque eu conversei com um colega deputado? Política é conversa", reclama.
"Quero ajudar o governo a roubar os pontos que ainda fazem Bolsonaro forte. Como, por exemplo, os clubes de tiro. O clube de tiro não tem a ver necessariamente com a violência. O que tem a ver com a violência é o clima de violência. Ficar criminalizando as pessoas que praticam tiro de forma esportiva, como atividade de lazer é empurrá-las para o lado do Bolsonaro", defende.