Slam dos Crias um movimento que ecoa as vozes das crianças para além da poesia

Movimento foi desenvolvido dentro da escola Leonardo Boff, a partir de uma construção coletiva

Por Richard Stoltzenburg - PETR

O projeto promove uma imersão completa no universo, conduzindo os participantes por uma formação prática

A frase "Eu fico com a pureza da resposta das crianças", da música 'O que É o que É?', expressa a essência do Slam dos Crias, um movimento cultural de Petrópolis que transforma a realidade de crianças, jovens e artistas periféricos através da força da poesia marginal, ecoando vozes a partir das palavras que transmutam em potência e força que moldam a visão de mundo e identidade dos envolvidos.

No movimento artístico, a palavra, que é um substantivo capaz de traduzir sentimentos e opiniões, é o que norteia os processos criativos, que vêm das vivências de cada indivíduo. Esse princípio é respeitado ao máximo no slam, que incentiva a necessidade de ouvir a si próprio e aos que estão ao redor, seja dos mais novos aos mais velhos.

"A poesia do slam não tem nenhuma regra nem estrutura fixa. Ela só tem uma regra, que seja sobre uma verdade. Então ela vai trazer uma realidade e questão própria, que pode ser uma verdade com todos, mas pode ser uma coisa individual e íntima", comentou Emily Santos, conhecida como Materna Poeta.

Isso pode ser visto na formação do coletivo, quando destacam: "Do chão da escola para o mundo: no Slam das Crias, a poesia nasce da infância, ecoa na favela e transforma vozes em potência", frase do grupo.

O pensamento expressado na frase é um reflexo da construção do coletivo que nasceu do desejo da educadora, produtora cultural, poeta de poesia marginal de slam, Emily Santos, de 26 anos, ao querer criar um espaço acolhedor para todos que gostam da arte, porém com diferencial, trazer as crianças para o universo, que é majoritariamente composto por jovens e adultos. "O projeto nasce de um desejo muito íntimo meu. Sou mãe e levo o nome artístico de Materna Poeta. Sempre tentei entrelaçar a minha maternidade solo com a poesia marginal de forma que eu conseguisse ocupar os espaços com as minhas necessidades, que é ser mãe solo e ter a necessidade de estar com a minha filha nesses espaços. Sempre fiquei com o desejo de ter um local que acolhesse mulheres mães e crianças. E aí percebi que os movimentos na rua têm uma certa limitação com esse público", contou.

Em busca de suprir as necessidades encontradas no caminho artístico, Materna Poeta encontrou nas crianças a possibilidade. "Não temos um espaço que a gente consiga ficar confortável com as nossas crianças. Não são espaços preparados para isso, né, com uma linguagem que a criança entenda esse movimento. Então, em abril de 2024, estava trabalhando na Escola Municipal Leonardo Boff, na Comunidade do Contorno, onde também moro, e a orientadora me veio com uma proposta de fazermos um Slam com as crianças, porque a rede estava com um projeto de poesias para a educação infantil. E daí surgiram os primeiros passos do coletivo", disse.

Segundo o grupo, o "Slam dos Crias", que conta com a atuação de Emily Santos, Mírian Santos e Patrick Santos, conhecido como Pekar, é um coletivo de poesia marginal e educação popular que promove batalhas de poesia falada, ações culturais, exibições audiovisuais e atividades formativas protagonizadas por crianças, jovens e artistas periféricos. Desde o surgimento, o projeto realiza ações em escolas públicas, eventos culturais, praças e espaços comunitários, fortalecendo a oralidade, a escuta e o protagonismo da poesia através da arte.

Na escola Leonardo Boff, onde se deram os primeiros passos da construção, Emily percebeu uma carência de trabalhos artísticos nas escolas e o incentivo a usar a poesia como uma forma de expressão. "A Secretaria de Educação é muito limitada no que entende de cultura e de poesia, num lugar ainda muito literário e distante do que as crianças da minha escola entendiam. Então, para eles não ia funcionar, vir com livros de poesias eruditas. E aí a orientadora falou, cara, e se a gente fizer um Slam com todas as crianças? E assim começa a construção com as crianças da escola", comentou a poeta.

O projeto promove uma imersão completa, conduzindo os participantes por uma jornada de formação prática que envolve oficinas de escrita criativa, construção de poesia, produção cultural e organização de eventos.

Para que a proposta fizesse sentido para diferentes faixas etárias, o trabalho foi estruturado em eixospedagógicos. "Com as turmas menores, o foco foi o resgate de parlendas, brincadeiras de roda, prosas e versos simples. O objetivo era mostrar que a poesia marginal já faz parte do cotidiano delas, além de propor uma reflexão sobre como as manifestações da periferia constituem a própria base da cultura brasileira, mesmo sendo historicamente marginalizadas. Enquanto isso, os grupos maiores se dedicaram à escrita autoral e à performance", expressou.

Reconhecimento

Emily também mencionou que em 2026 o Slam dos Crias foi reconhecido, através do mandato da Deputada Dani Monteiro (Psol), pelo compromisso com a defesa da cultura popular, da memória coletiva e da reparação histórica social. O evento do prêmio contou com a presença do rapper DK 47, conhecido por integrar o grupo Além da Loucura e por idealizar a série de cyphers de grande sucesso Favela Vive.

Trazendo para o momento atual, o movimento se prepara para realizar a sexta edição do Slam dos Crias neste sábado, dia 18, no espaço Sobrado. Em uma iniciativa inédita para a cena cultural de Petrópolis, o evento vai unir a poesia falada a uma roda de samba em parceria com o Sambice. Essa fusão busca somar forças e conectar públicos, trazendo uma energia totalmente nova e potente para o slam local.

A finalíssima já tem data e local definidos: acontecerá no dia 29 de agosto, no Centro de Defesa dos Direitos Humanos (CDDH), marcando a trajetória de escrita, voz e resistência da juventude.