Professor da FGV explica impactos da alta dos combustíveis

Rafael Chaves alerta para risco de inflação e desabastecimento no país

Por Richard Stoltzenburg - PETR

Em Petrópolis, o valor médio da gasolina comum chegou a R$ 7,19

Por Gabriel Rattes

A alta recente dos combustíveis em Petrópolis não é um fenômeno isolado. Segundo o professor de economia e finanças da FGV EPGE, Rafael Chaves, o aumento está diretamente ligado ao cenário internacional, especialmente aos conflitos no Oriente Médio.

Em entrevista ao programa Correio Petropolitano Debate, o especialista explicou que a guerra atinge uma das regiões mais estratégicas do mundo para a produção e circulação de petróleo. "A guerra está acontecendo numa região com grande fluxo e comércio de combustível fóssil. Isso reduz a oferta e pressiona os preços do petróleo e de seus derivados", afirmou.

Com isso, produtos como gasolina, diesel e querosene de aviação ficam mais caros — e os reflexos chegam ao Brasil rapidamente. Um dos efeitos já sentidos é o aumento no preço das passagens aéreas e no custo do transporte em geral.

Preços continuam subindo

Mesmo com medidas adotadas pelo governo federal para tentar conter a inflação, os preços seguem em alta. Para o professor, há erros na forma como o problema vem sendo enfrentado. Ele critica, por exemplo, ações de fiscalização que tentam limitar preços nos postos de combustíveis.

"Não é um burocrata em Brasília que vai ditar o preço. Quando o governo interfere na relação de compra e venda, pode gerar distorções. O mercado é descentralizado. São cerca de 50 mil postos no Brasil. Não é possível definir preço de forma centralizada sem gerar distorções", explicou.

Chaves destaca que o aumento ocorre porque há menos oferta e alta demanda — especialmente em momentos de crise. "Não conseguimos controlar o que acontece no Oriente Médio, mas os efeitos chegam ao Brasil na forma de aumento do preço dos combustíveis e inflação", disse.

Outro ponto levantado é a política de preços da Petrobras. Segundo o economista, a empresa não tem repassado integralmente a alta internacional em todas as regiões, o que cria desequilíbrios no mercado. "O preço do barril saiu de cerca de 60 para mais de 100 dólares. Isso já não é volatilidade, é mudança de patamar", disse.

Para ele, segurar preços artificialmente pode gerar problemas maiores, como prejuízos e falta de produto. "De uma forma ou de outra, alguém vai pagar essa conta", enfatizou.

Alta já pesa no bolso

Em Petrópolis, o impacto já é evidente. Dados mais recentes da ANP - Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis - mostram que, na quarta semana de março:

? Gasolina aditivada: média de R$ 7,17 e máxima de R$ 7,49

? Gasolina comum: média de R$ 7,04 e máxima de R$ 7,29

? Etanol: média de R$ 5,54 e máxima de R$ 5,69

O aumento semanal chegou a mais de R$ 0,30 em alguns casos. Motoristas relatam dificuldade para manter os custos, principalmente aqueles que dependem do veículo para trabalhar.

Três impactos principais

De acordo com Rafael Chaves, o cenário atual pode trazer três consequências diretas para a sociedade: desabastecimento, inflação mais alta e pressão nas contas públicas.

Desabastecimento: A intervenção no mercado pode afastar importadores. Como cerca de 30% do diesel consumido no Brasil vem do exterior, isso pode gerar falta do produto. "O combustível mais caro é aquele que não tem. Se você desestimula esse mercado, pode gerar desabastecimento", resumiu.

Inflação mais alta: A gasolina representa cerca de 5% do índice oficial de inflação (IPCA). Já o diesel impacta toda a cadeia de transporte. Com o aumento: alimentos ficam mais caros; fretes sobem; e serviços são reajustados.

Pressão nas contas públicas: Caso o governo segure preços abaixo do valor internacional, a diferença precisa ser coberta. "Se o governo vende combustível mais barato do que o custo de importação, essa conta vai aparecer depois, seja na bomba ou em impostos", explicou.

Possíveis soluções

Para o economista, medidas mais amplas poderiam reduzir os impactos sem distorcer o mercado, como subsídios temporários e distribuídos de forma equilibrada. Ele cita experiências anteriores, em que políticas desse tipo ajudaram a conter crises no setor de combustíveis. "O governo está deixando a desejar na condução desse período. Já deveria ter adotado medidas mais efetivas, como uma subvenção mais agressiva e horizontal, para evitar distorções no mercado", explicou.

"Em momentos de crise, o caminho não é interferir diretamente no preço, mas criar mecanismos que permitam ao mercado funcionar com menos impacto para o consumidor", completou o professor.

Quem é o especialista

Rafael Chaves Santos é professor da FGV EPGE desde 2014 e doutor em Economia. Tem experiência no setor público e privado, com atuação na Petrobras e em empresas internacionais. Também participou do desenvolvimento de modelos econômicos utilizados pelo Banco Central para análise de política monetária.