Clipe "Acertei no Ego" promove reflexão pessoal e busca por sonhos
Topre expressa questionamentos que perpassam o individual e atingem o coletivo
Espelho é um objeto utilizado desde a antiguidade como uma ferramenta de observação que vai além da imagem. Ele coloca um indivíduo frente a frente consigo próprio, provocando então um reflexo que leva ao autoconhecimento, se assim for direcionado. A autoanálise não é uma tarefa fácil, pois coloca em xeque toda a construção de um ser. Baseando-se nessa perspectiva, o rapper petropolitano, Topre, lançou o videoclipe do single "Acertei no Ego", onde perpassa questionamentos individuais, tocando o coletivo com assuntos que envolvem traumas, sonhos, saúde mental e amor próprio.
"Quando comecei a letra, quis me dedicar a algo que fosse tão meu, ao ponto de que isso pudesse ser do outro também. Um confronto comigo mesmo em frente ao espelho, com as várias fases da minha vida, lidando principalmente com traumas, vícios, defeitos, fraquezas, decepções, ansiedade, angústias e anseios", contou.
O artista expressou que a música iniciou com um exercício de expressar o próprio interior, como forma de orientação, buscando inspiração em filósofos, tendo como base um pensador central conhecido como Lao Tse Tung. "[...] Tiro de dentro do meu instinto o verbo para alimentar o meu templo [...]. A partir desse verso, tive ciência sobre o que a música seria. O meu 'eu' é parte da natureza e desapegado do Ego", disse.
Místico
A arte é uma coisa mística que reverbera em muitas vertentes, que tocam o espectador em diversas camadas. De forma latente, isso atravessou Topre que, antes mesmo de receber do MC e produtor Lincoln uma série de instrumentais para que pudesse escolher com quais queria trabalhar, se deparou com um chamado "sentimental". Após o episódio, teve certeza do caminho que vinha construindo na faixa.
"Há algo de divino ao se fazer arte. Essa intuição me guiou por toda a construção da música, na métrica, na rítmica, nas palavras utilizadas, nas pausas e até mesmo na "ausência" de um refrão que me resultou na frase de impacto que logicamente se tornaria o título", relembrou.
Continuidade
Topre menciona que a obra atual vem como uma continuidade do último projeto intitulado "A arte que se manifesta na vida". "Ela vem como uma introspecção e reflexão, para que o ouvinte se questione sobre si e potencialize o autoconhecimento e o autocuidado mental no caminho da busca dos sonhos, pois vivemos tempos em que a saúde mental tem se tornado pauta, mas muitas vezes nossa rotina exaustiva nos tira desse foco e a nossa saúde segue sendo sugada por pressões externas, nos tirando a capacidade de dar conta de cuidar do mais importante: a nossa vida", expressou.
A música foi gravada pelo produtor K4ME, que assina a produção das demais faixas do EP intituladas "Causa e efeito" e "Utopia", no estúdio Puto Records.
Clipe
O clipe foi produzido em 2025 pelo fotógrafo Douglas Ramos. Nele, o artista trouxe a dualidade das personalidades presentes na letra, colocando um elemento crucial: o espelho. "Queria deixar claro no clipe que era EU em vários sentidos, como citado acima, então pensei em um figurino simples, mas que passasse essa impressão. Escolhi alternar entre o preto e o branco para conversar comigo mesmo e levei de última hora um espelho que havia acabado de comprar na mesma semana em um bazar, que casou perfeitamente com a segunda parte da música, composta por três partes, onde canto o verso 'me olhei no espelho e meu melhor amigo estava com saudade do Topre que eu era'", relatou.
Música
Para o rapper, a música é uma entidade e a maneira mais nítida de manter o ser humano conectado com a natureza através das frequências emanadas por ela.
Nas letras, Topre traz as próprias vivências como cenário. "Cresci no meio das dificuldades que nunca foram só minhas, essas dificuldades foram e são a realidade de boa parte dos brasileiros, e quando você é preto isso se torna mais profundo ainda. Então eu vi na música uma oportunidade de expor minhas vivências sabendo que elas não são só minhas", ressaltou.
Na modalidade artística, ele se coloca protagonista da história e ocupa o lugar de construir a narrativa. Algo que salta aos olhos ao resgatar memórias, feitos e saberes ancestrais do povo preto, abrindo caminhos para a construção de um futuro consciente e enraizado.
"A escravidão no Brasil nos retirou a possibilidade de autonomia sobre nossos próprios corpos e histórias. Isso reverbera até hoje, fazendo muitas vezes com que nós não acreditemos no nosso próprio potencial como indivíduos. Me enxergar por essa ótica de protagonismo é somente fazer o inverso para lidar com o mundo a partir das minhas experiências e incentivar outros pretos a fazerem o mesmo, e, na minha visão, a arte é o meio mais democrático para que isso aconteça", enfatizou.
Trajetória nos palcos
O petropolitano atua no meio artístico há 11 anos e começou a fazer músicas há cinco. O estilo que ele escolheu para seguir sua trajetória musical foi o Rap. "O Rap, o Hip Hop são ferramentas mágicas de alcance único entre o povo preto. Elas me alcançaram e as propago", disse o artista.
Topre fala que a origem do seu nome representa "Petro" ao contrário. O rapper conta como se sente em representar gerações através de seu fazer artístico.
O legado a ser construído por ele no caminho é de superação, autoestima, confiança, conexão com a ancestralidade mesmo diante dos apagamentos, respeito ao tempo e vontade de sonhar.