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O legado de Guterres e os desafios da ONU

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António Guterres chega ao fim de seus dez anos à frente das Nações Unidas deixando um legado marcado por avanços importantes, mas também por limitações que não podem ser atribuídas exclusivamente ao secretário-geral. Seu mandato termina em 31 de dezembro, em um momento em que a própria capacidade da ONU de responder às grandes crises internacionais é colocada à prova.

Entre os pontos positivos de sua gestão está a defesa persistente do multilateralismo em uma década marcada pelo aumento das disputas entre as grandes potências. Guterres deu destaque à crise climática, aos direitos humanos, à defesa dos refugiados e à necessidade de fortalecer a cooperação internacional. Também procurou modernizar o sistema de desenvolvimento das Nações Unidas e ampliar a coordenação entre suas diferentes estruturas.

Na reta final do mandato, incorporou à agenda temas que serão decisivos para o futuro, como a regulamentação da inteligência artificial, além de insistir na reforma do Conselho de Segurança. Guterres também deixa como marca a defesa de uma representação internacional mais compatível com a realidade atual, incluindo maior presença da África nas estruturas decisórias da organização.

Mas o balanço também expõe dificuldades. As guerras na Ucrânia, no Oriente Médio, no Sudão e em outras regiões demonstraram os limites de uma instituição cujo poder depende, em grande medida, da disposição política de seus Estados-membros. O Conselho de Segurança continuou submetido às divergências entre seus integrantes permanentes, enquanto a redução do apoio financeiro e político de algumas grandes potências aumentou a pressão sobre a estrutura da ONU.

O próximo secretário-geral receberá, portanto, uma organização diante de uma encruzilhada. Terá de recuperar a confiança no multilateralismo, melhorar a capacidade de mediação de conflitos, enfrentar o financiamento insuficiente, acelerar a reforma institucional e encontrar mecanismos para governar tecnologias como a inteligência artificial. Precisará ainda conciliar interesses de potências que disputam influência em um mundo cada vez mais multipolar.

Mais do que administrar uma burocracia internacional, o próximo ocupante do cargo terá de reconstruir pontes entre países que perderam a disposição para negociar. O desafio será fazer com que a ONU volte a ser percebida não apenas como fórum de discursos, mas como instrumento capaz de produzir acordos, proteger populações vulneráveis e responder a crises globais.

O legado de Guterres mostra que a organização continua necessária. As dificuldades de seu mandato, porém, revelam que a sobrevivência e a relevância da ONU dependerão menos de um único secretário-geral do que da disposição dos países-membros de devolver força ao diálogo, à cooperação e às instituições multilaterais.