El Niño: quando a previsão já é um alerta

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As previsões climáticas não são capazes de dizer exatamente onde cairá a próxima chuva forte, qual cidade enfrentará uma enchente ou quando ocorrerá uma seca severa. Mas elas conseguem indicar tendências, probabilidades e cenários de risco. E, quando a probabilidade de um El Niño muito forte supera os 90%, como apontam as estimativas mais recentes, ignorar esse sinal deixa de ser cautela e passa a ser irresponsabilidade.

O problema, portanto, não está apenas no fenômeno climático que se aproxima. Está na capacidade do poder público de transformar informação em prevenção. Estudos, modelos meteorológicos e sistemas de monitoramento existem justamente para que governos tenham tempo de se preparar. Se a ciência consegue antecipar riscos, não faz sentido que as autoridades esperem a ocorrência de uma tragédia para começar a agir.

O El Niño pode alterar padrões de chuva e temperatura e produzir consequências diferentes entre as regiões brasileiras. Isso significa que prevenção não pode ser uma medida genérica. É preciso considerar os riscos de cada território, revisar sistemas de drenagem, estruturas de contenção, redes elétricas, abastecimento de água, produção agrícola, estradas e mecanismos de resposta a emergências.

Também é necessário olhar para a infraestrutura que já existe. O fato de uma obra ter sido adequada às condições climáticas de décadas atrás não significa que continuará preparada para os extremos que podem ocorrer hoje. O próprio Ibama passou a recomendar que os riscos associados ao El Niño sejam considerados no licenciamento de hidrelétricas, portos e linhas de transmissão. É um reconhecimento importante de que prevenção precisa começar antes mesmo da construção de determinadas estruturas.

Outro ponto fundamental é a comunicação com a população. Alertas meteorológicos precisam chegar de maneira rápida, clara e confiável às pessoas que vivem em áreas de risco. Mas não basta enviar uma mensagem quando a tempestade já está sobre a cidade. É preciso orientar previamente, preparar comunidades, testar protocolos e deixar claro o que deve ser feito diante de uma situação de emergência. Diante de uma probabilidade superior a 90%, a pergunta mais importante já não deveria ser se o El Niño será muito forte. Deveria ser se o país estará preparado caso ele realmente seja.