Muito medicamento e pouco conhecimento
A medicina avançou. Nos últimos anos, aumentou a oferta de medicamentos, tratamentos e tecnologias capazes de enfrentar doenças que durante muito tempo tiveram poucas alternativas terapêuticas. O problema é que esse avanço não foi necessariamente acompanhado pelo aumento do conhecimento da população sobre como utilizar essas ferramentas de maneira adequada.
As chamadas canetas emagrecedoras são um exemplo claro desse descompasso. Medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1 ganharam espaço no tratamento da obesidade e podem produzir resultados importantes. Mas a popularização dessas substâncias também criou uma percepção perigosa de que basta utilizar o medicamento para alcançar o resultado desejado. Não basta.
Um tratamento de saúde não pode ser reduzido ao produto utilizado. Existe uma indicação, uma dose adequada, um acompanhamento e, principalmente, um objetivo clínico. Quando esses elementos são ignorados, o que deveria contribuir para a saúde pode produzir consequências indesejadas.
No caso das canetas emagrecedoras, a redução acentuada do apetite pode fazer com que algumas pessoas diminuam excessivamente a ingestão de alimentos. Sem orientação adequada, isso pode significar consumo insuficiente de proteínas, vitaminas e outros nutrientes, além de perda de massa muscular. O emagrecimento, portanto, não deve ser avaliado apenas pelo número que aparece na balança. Perder peso não significa necessariamente melhorar a saúde.
Esse princípio vale para praticamente qualquer tratamento. A ampliação do acesso a medicamentos não elimina a necessidade de informação. Pelo contrário. Quanto mais alternativas existem, maior precisa ser a capacidade do paciente de compreender para que elas servem, quais são seus limites e quais cuidados precisam acompanhá-las.
O avanço da medicina, portanto, precisa ser acompanhado por um avanço na educação em saúde. Não basta disponibilizar medicamentos. É necessário explicar como funcionam, para quem são indicados, quais resultados podem ser esperados e quais comportamentos precisam ser associados ao tratamento. No caso da obesidade, por exemplo, alimentação adequada e atividade física continuam sendo componentes importantes do cuidado, mesmo quando há utilização de medicamentos.