Prática e discurso sobre clima precisam mudar

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Durante muito tempo, falar sobre meio ambiente parecia significar falar sobre um futuro distante. Era comum ouvir que era preciso preservar o planeta para deixar um mundo habitável para filhos e netos. A frase, embora correta em sua intenção, carrega uma percepção cada vez mais equivocada sobre a urgência da questão climática. O futuro chegou. E os sinais de que ele chegou estão nas ruas, nos rios, nas lavouras, nos reservatórios e no orçamento das famílias.

Enchentes, vendavais, secas prolongadas e ondas de calor deixaram de ser acontecimentos que podem ser tratados apenas como exceções meteorológicas. Para muitas pessoas, consultar a previsão do tempo antes de sair de casa já não serve apenas para saber se é melhor levar um guarda-chuva ou recolher as roupas do varal.

Em determinadas situações, essa informação pode ser necessária para decidir se é seguro sair, viajar, trabalhar ou permanecer em determinada região.

O problema também aparece de maneira menos imediata, mas igualmente preocupante. A desertificação avança sobre áreas do território brasileiro e ameaça diretamente recursos que sustentam a vida e a economia. Cerca de 39 milhões de brasileiros vivem em locais ameaçados pelo processo, enquanto aproximadamente 18% do território nacional está classificado como área suscetível à desertificação. Entre 2000 e 2020, a área afetada aumentou de 1,35 milhão para 1,51 milhão de quilômetros quadrados.

A desertificação não significa simplesmente transformar uma região em um deserto. É um processo de degradação que reduz a capacidade do solo de reter água e sustentar a produção. Quando isso acontece, os efeitos ultrapassam os limites do campo. Menos água significa mais dificuldade para produzir alimentos, pressão sobre o abastecimento, perda de renda, migração e aumento dos custos. O impacto chega às cidades por meio dos preços, do emprego, da arrecadação e da necessidade de ampliar investimentos públicos.

Talvez seja hora de abandonar definitivamente a ideia de que precisamos preservar o planeta apenas para as próximas gerações. è necessário preservá-lo porque o mundo já está vivendo as consequências da degradação ambiental.

A preocupação climática não está antecipada. Está atrasada. O futuro não está batendo à porta. Ele já entrou.