Eleição, tarifaço, juros e inflação na mesa do BC

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O Banco Central brasileiro enfrenta, neste segundo semestre, um dos mais delicados dilemas da política econômica: como reduzir os juros sem permitir que a inflação volte a ganhar força, em meio a um cenário internacional marcado por guerras, tarifas e incertezas, e a um ambiente doméstico contaminado pela disputa eleitoral de outubro.

A Selic está em 14% ao ano, após o quarto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual. O movimento indica que o Banco Central reconhece a desaceleração da inflação e os efeitos, ainda graduais, da política monetária restritiva sobre a atividade econômica. Mas a cautela permanece justificada: as expectativas de inflação continuam acima da meta, o que dificulta uma redução mais rápida dos juros.

O problema é que parte das pressões sobre os preços não nasce dentro do Brasil. As guerras no Oriente Médio podem provocar novos choques de energia e combustíveis, enquanto o tarifaço de Donald Trump altera fluxos comerciais, preços e decisões de investimento em todo o mundo. São fatores sobre os quais o Copom tem pouco ou nenhum controle. Ainda assim, seus efeitos podem chegar ao consumidor brasileiro por meio do câmbio, dos combustíveis e das commodities.

É justamente aí que está o dilema. Subir ou manter juros muito elevados não produz petróleo, não encerra guerras e não desfaz tarifas. Mas reduzir a Selic de maneira precipitada pode alimentar o câmbio, desancorar expectativas e dificultar ainda mais o combate à inflação. O remédio monetário tem limites, sobretudo quando a origem do problema é externa.

Há, ainda, a variável eleitoral. A proximidade das eleições de outubro tende a aumentar a volatilidade dos mercados e a sensibilidade dos investidores aos discursos sobre gastos públicos, dívida e futuro da política econômica. O Banco Central precisa resistir à tentação de transformar sua política em instrumento eleitoral — seja para agradar o governo, seja para responder às pressões do mercado.

A melhor decisão, portanto, não será necessariamente a mais popular. O BC deve preservar sua autonomia, comunicar-se com clareza e calibrar os juros conforme os dados, não conforme o calendário eleitoral. Ao governo, cabe fazer a sua parte: responsabilidade fiscal e previsibilidade ajudam a reduzir a pressão sobre a política monetária.

Inflação baixa e juros sustentáveis não se constroem apenas na mesa do Copom. Dependem de credibilidade, equilíbrio fiscal e capacidade de atravessar choques externos sem transformar cada turbulência internacional em uma crise doméstica. Em ano eleitoral, essa disciplina será mais importante.