O leilão da Fazenda Remonta e a miopia urbana
A recente arrematação da Gleba B da Fazenda Remonta por R$ 494,4 milhões pela Alphaville Desenvolvimento Imobiliário escancara uma lógica perversa que insiste em governar o crescimento metropolitano: a conversão do patrimônio ambiental público em lucro imobiliário. Promovido pela Fundação Habitacional do Exército (FHE), o leilão do terreno de 162 hectares, situado estrategicamente entre Campinas e Valinhos, não é um fato isolado, mas o sintoma de um modelo de desenvolvimento urbano que devora seus últimos refúgios naturais enquanto transforma a preservação ecológica em obstáculo descartável.
Não se trata de uma área verde qualquer. A Fazenda Remonta abriga um dos mais importantes remanescentes de Mata Atlântica da região e desempenha um papel ecológico insubstituível. O espaço funciona como um corredor ecológico vital, interligando a Floresta Estadual da Serra D'Água à Estação Ecológica de Valinhos. Essa conexão garante o fluxo gênico e a circulação segura de espécies ameaçadas, como a onça-parda. Felinos jovens necessitam dessas faixas contínuas de mata para buscar novos territórios na idade adulta. Sem essa ligação, as reservas transformam-se em ilhas isoladas, empurrando os animais para o tráfego pesado e multiplicando atropelamentos nas pistas regionais.
É justamente na relação entre a especulação imobiliária e a malha viária que reside o ciclo mais destrutivo desse modelo. A instalação de loteamentos fechados de alto padrão em áreas periféricas e lindeiras a rodovias pressiona o trânsito local. Em pouco tempo, o gargalo gerado serve de pretexto técnico para a abertura de novas vias de rodoviarismo, a exemplo das polêmicas intervenções no projeto do Contorno Norte de Campinas, exigindo novos rasgos na vegetação e destruindo zonas de amortecimento. Alimenta-se um círculo vicioso: desmata-se para erguer condomínios, erguem-se estradas para atendê-los e desmata-se novamente para rasgar mais asfalto.
Frente a esse paradoxo, a indagação que se impõe ao poder público e à sociedade é inescapável: por que não planejar o crescimento urbano direcionando os novos empreendimentos para vazios urbanos, terrenos já degradados ou áreas consolidadas com infraestrutura, poupando o que resta da cobertura vegetal nativa? Por que sacrificar áreas de preservação estratégica quando existem alternativas territoriais evidentes?
O interesse financeiro de instituições públicas, como a FHE, não pode se sobrepor à segurança hídrica, à contenção de enchentes, ao combate às ilhas de calor e à manutenção da biodiversidade. As liminares da Justiça Federal e do TCU que travam a transferência da área oferecem uma pausa necessária para a reflexão. O desenvolvimento regional precisa, urgentemente, parar de enxergar a floresta em pé como um mero lote a ser asfaltado.