Acidente de trabalho não é fatalidade, é descaso

Acidente de trabalho não é fatalidade, é descaso

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O salto de 63% no número de processos trabalhistas relativos a acidentes de trabalho e doenças ocupacionais em Campinas, registrado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região em 2025, não pode ser tratado apenas como um aumento nas estatísticas. Afinal, são 1.074 ações em um único ano, um recorde que revela uma realidade preocupante: milhares de trabalhadores estão adoecendo, machucando-se e, em muitos casos, tendo suas vidas transformadas por situações, que, muitas vezes são encaradas como resultado do azar ou da distração do funcionário.

Contudo, esse tipo de justificativa não se sustenta. A legislação brasileira é clara ao estabelecer que cabe ao empregador oferecer condições seguras, equipamentos adequados, treinamento permanente e fiscalização contínua. Quando isso falha, o resultado aparece nas estatísticas dos hospitais, no INSS e, agora, nos tribunais.

As histórias de operadores de máquinas que perdem parte dos dedos durante o expediente não são incomuns, simbolizando uma tragédia que vai muito além da indenização financeira. Isto porque não há decisão judicial que devolve plenamente a capacidade física, a autoestima ou a tranquilidade de quem passa a conviver com uma limitação permanente.

Outro aspecto que merece atenção é a mudança no perfil das ações jurídicas. Se antes predominavam acidentes físicos típicos, hoje crescem os casos relacionados às doenças ocupacionais e ao adoecimento mental. Ansiedade, depressão e síndrome de burnout passaram a integrar a rotina das empresas, decorrentes das condições laborais abusivas.

Parte do aumento das ações pode estar refletindo maior conscientização dos trabalhadores sobre os seus direitos e maior disposição para recorrer à Justiça. E isso é positivo. O acesso ao Judiciário fortalece o exercício da cidadania e contribui para responsabilizar quem negligencia normas de segurança.

No entanto, o número de acidentes continua elevado e revela que a prevenção ainda não ocupa o espaço que deveria dentro de muitas organizações. A Segurança do Trabalho não pode ser encarada como custo operacional. É investimento em produtividade, em dignidade e em vidas.

Cada processo registrado representa, para além das estatísticas, a história de alguém que saiu de casa para trabalhar e voltou diferente. Ou sequer conseguiu voltar à vida que tinha antes.