A fila de dor e espera que não anda

A fila de dor e espera que não anda

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A informação da existência de uma fila com 46 mil pacientes à espera de atendimento ortopédico em Campinas, alguns aguardando há 12 anos por cirurgia, extrapola qualquer justificativa para minimizar o sofrimento dos pacientes e o retrato de ineficiência administrativa. Essa situação é a demonstração concreta de como o poder público consegue naturalizar o sofrimento ao deixar de tratar a saúde como urgência permanente.

Não se trata apenas de números. Cada pessoa desta fila convive com a dor, limitação de movimentos, afastamento do trabalho, perda de renda, dependência de familiares e, não raro, o agravamento de um problema que poderia ter sido tratado antes de se tornar incapacitante. Uma cirurgia ortopédica adiada por anos é mais que simplesmente um procedimento pendente, é qualidade de vida suspensa.

A atuação do Ministério Público, ao recorrer à Justiça diante do cenário, evidencia a gravidade da situação e a incapacidade de as estruturas públicas apresentarem respostas compatíveis com a dimensão da demanda.

Entretanto, é preciso ir além da judicialização. Decisões judiciais podem pressionar, fixar metas e exigir transparência, mas elas não substituem planejamento, financiamento, equipes, leitos, centros cirúrgicos e gestão eficiente da regulação.

Campinas é uma metrópole, referência regional em saúde e sede de uma rede hospitalar complexa, e, justamente por isso, não pode aceitar que milhares de pessoas permaneçam invisíveis em sistemas de espera, sem previsão clara, acompanhamento adequado ou prioridade com base na gravidade clínica.

Fila não pode ser sinônimo de abandono burocratizado.

É indispensável que a Prefeitura, Estado e União assumam responsabilidades proporcionais. A demanda reprimida não nasceu 'ontem'. Ela é o resultado de anos de insuficiência de oferta, falhas de integração e ausência de respostas estruturantes. O desafio agora não se resume a apenas reduzir uma lista. O desafio é o de impedir que ela continue sendo postergada.

A cidade precisa de um plano público com metas verificáveis e acompanhadas, cronograma possível de ser cumprido , critérios transparentes e divulgação periódica dos resultados. Afinal, esperar 12 anos por uma cirurgia não é esperar por atendimento, e ser condenado a viver com a dor que o sistema deveria combater.