O Brasil diante da nova disputa global

Por

O mundo entrou em uma fase de competição intensa por capital. Em meio à reorganização das cadeias produtivas, à transição energética e à busca por maior segurança econômica, países desenvolvidos e emergentes disputam, de forma cada vez mais agressiva, investimentos em indústria, tecnologia e infraestrutura. Nesse cenário, o Brasil precisa decidir se será protagonista ou apenas espectador.

A oportunidade existe e é concreta. O país dispõe de matriz energética relativamente limpa, mercado interno robusto, abundância de recursos naturais e posição geográfica estratégica. Soma-se a isso o movimento global de "nearshoring", no qual empresas buscam aproximar a produção dos mercados consumidores, reduzindo dependência de cadeias longas e vulneráveis.

No entanto, potencial não se converte automaticamente em investimento. O Brasil ainda enfrenta entraves conhecidos: burocracia excessiva, insegurança jurídica, carga tributária complexa e infraestrutura deficiente. Esses fatores reduzem a competitividade e elevam o chamado "custo Brasil", frequentemente decisivo na escolha de onde aplicar capital.

A disputa internacional também ganhou novos contornos. Estados Unidos, União Europeia e países da Ásia vêm adotando políticas industriais ativas, com incentivos fiscais, subsídios e estratégias agressivas para atrair empresas estratégicas, especialmente nos setores de energia limpa, semicondutores e tecnologia. O Brasil, nesse tabuleiro, ainda atua de forma mais reativa do que planejada.

Outro ponto central é a previsibilidade. Investidores não buscam apenas oportunidades, mas estabilidade regulatória e horizonte claro de médio e longo prazo. Mudanças frequentes em regras fiscais e tributárias, além de incertezas políticas, afetam diretamente a confiança e afastam projetos de maior escala.

Há, porém, sinais de avanço. A transição energética coloca o Brasil em posição privilegiada, com potencial para liderar em biocombustíveis, energia solar, eólica e hidrogênio verde. A reforma tributária, se bem implementada, pode simplificar o ambiente de negócios e reduzir distorções históricas. Mas esses movimentos ainda precisam sair do papel.

O momento exige mais do que declarações de intenção. Mais coordenação entre governo federal, estados e setor privado, além de uma estratégia de inserção global. A briga por investimentos não será vencida por quem apenas oferece vantagens pontuais.