Sempre é só depois da tragédia
No Brasil, há uma frase repetida com frequência que revela muito sobre a forma como lidamos com problemas públicos: foi preciso acontecer uma tragédia. A expressão surge após acidentes, desastres, mortes evitáveis e episódios que, em muitos casos, já haviam sido anunciados por moradores, especialistas ou órgãos de fiscalização. É uma constatação dolorosa e, ao mesmo tempo, um retrato persistente do país.
A recente morte de uma jovem em uma área conhecida pelos riscos reacendeu um debate antigo. Somente após a perda irreparável de uma vida, medidas emergenciais foram adotadas, acessos foram interditados e providências começaram a ser tomadas. O episódio não é isolado. Pelo contrário. Ele se soma a uma longa lista de acontecimentos que expõem uma cultura reativa, em vez de preventiva.
Ao longo das décadas, o Brasil acumulou exemplos de tragédias que poderiam ter sido evitadas. Encostas que deslizam após alertas ignorados, estruturas deterioradas que desabam depois de anos sem manutenção, vias perigosas sem sinalização adequada e áreas de risco que permanecem abertas apesar dos avisos constantes. Em muitos casos, o perigo era conhecido. O que faltou foi ação.
A lógica parece se repetir independentemente do tema ou da região do país. Primeiro surgem os alertas. Depois vêm as denúncias e os pedidos de providência. Em seguida, o silêncio administrativo. Somente quando ocorre o pior é que a mobilização ganha força, impulsionada pela comoção pública e pela repercussão do caso. É quando aparecem promessas, interdições e anúncios de mudanças que, infelizmente, chegam tarde para quem perdeu a vida.
Essa dinâmica revela um problema estrutural da gestão pública brasileira. Governar não significa apenas responder às crises, mas antecipá-las. Planejamento, manutenção e fiscalização não produzem manchetes grandiosas, mas salvam vidas. E salvar vidas deveria ser o principal objetivo de qualquer política pública.
Há também uma responsabilidade coletiva. A sociedade precisa exigir ações preventivas com a mesma intensidade com que cobra respostas após as tragédias. Não se pode aceitar a normalização do improviso nem a ideia de que acidentes são inevitáveis quando os riscos já eram conhecidos.
Cada tragédia deixa famílias destruídas e comunidades marcadas pela dor. Mas deixa também uma pergunta incômoda: quantas vidas ainda precisarão ser perdidas para que a prevenção deixe de ser exceção e se torne regra? Um país verdadeiramente comprometido com seu futuro não espera o pior acontecer para agir. Ele age justamente para impedir que o pior aconteça.