CNH: aprovação de alto risco
CNH: aprovação de alto risco
A queda de quase 45% nas reprovações para obtenção da CNH na região de Campinas talvez pareça, à primeira vista, uma boa notícia. Menos ansiedade, menos burocracia, menos tempo perdido e mais pessoas habilitadas. Só que não… Em tempos em que se valoriza a rapidez, a simplificação e o "descomplicado", eliminar a baliza do exame prático parece atender justamente esse anseio. A questão é complexa em um país no qual acidentes envolvendo veículos matam indiscriminadamente. Afinal, dirigir um automóvel tem o mesmo peso de se andar portando uma arma carregada. Os números divulgados pelo Detran-SP revelam que as reprovações despencaram após a retirada da exigência da baliza, acompanhadas de outras flexibilizações, como redução da carga horária prática, possibilidade de uso de veículo automático e diminuição da exigência mínima no exame teórico. O discurso oficial vende eficiência, mas talvez estejamos apenas trocando rigor técnico por aprovação popular.
A questão central não está em defender a baliza como um ritual sagrado da habilitação, visto que muitos candidatos sofriam mais com o nervosismo do que com a incapacidade real de conduzir um veículo. O problema está no que representa esta mudança. Quando sucessivas exigências deixam de existir ao mesmo tempo, a mensagem transmitida é clara: o processo de habilitação precisa ser "facilitado" porque reprovar tornou-se um inconveniente político e comercial. E isso é muito perigoso.
O Brasil já convive com um trânsito historicamente violento. Mortes, colisões, imprudência, motociclistas mutilados, motoristas distraídos, motoristas despreparados e uma cultura viária profundamente deficiente integram o cotidiano. Nesse cenário, afrouxar critérios de formação parece menos modernização e mais resignação irresponsável.
Há ainda, o mercado da habilitação transformou-se numa indústria de aprovação. O foco, que deveria ser o de formar condutores seguros, foi substituído pela entrega indiscriminada de CNHs. Quanto menos barreiras, maior o fluxo e o ganho das autoescolas. Quanto mais aprovações, maior a sensação de eficiência do sistema. A própria baliza nunca foi apenas sobre estacionar entre cones. Ela avaliava a percepção espacial, controle do veículo, noção de distância e domínio emocional sob pressão. Qualquer motorista experiente sabe que estacionar em cidades como Campinas exige isso.
A flexibilização pode até democratizar o acesso à CNH para pessoas de baixa renda que enfrentavam custos elevados e repetidas reprovações. Porém, democratizar o acesso não pode significar banalizar o preparo adequado, colocando pessoas em risco. Facilitar não significa necessariamente evoluir.