Passarela chega após pressão e insegurança
A duplicação da Rodovia Engenheiro Miguel Melhado Campos, em Campinas, deveria representar progresso, segurança e melhoria da mobilidade para milhares de moradores da região sul da cidade. Mas o que deveria representar desenvolvimento acabou escancarando o descaso do poder público com a população mais pobre, obrigada a arriscar a própria vida diariamente em uma rodovia entregue sem passarela, uma estrutura tão básica que sequer foi prevista no projeto original. É difícil compreender como uma rodovia duplicada, inaugurada com pompa pelo Governo do Estado, ignorou a necessidade de uma passarela em um trecho onde moradores atravessam diariamente para trabalhar, estudar e acessar serviços. Mais grave ainda é descobrir que a estrutura sequer constava no projeto da obra.
A ausência da passarela não é um detalhe técnico. É um erro de concepção. Um descaso evidente com a população que vive às margens da rodovia e conhece, na prática, os riscos enfrentados todos os dias. Enquanto autoridades celebravam a entrega da duplicação, moradores do Campo Belo e da Cidade Singer já denunciavam o perigo. Pouco tempo depois, imagens de pessoas pulando barreiras de concreto para atravessar a pista começaram a circular na imprensa e nas redes sociais. Somente após pressão popular, cobranças da imprensa regional e atuação do Ministério Público é que o DER-SP passou a admitir a necessidade da obra. Agora, o órgão informa à Justiça que pretende construir a passarela "com a maior brevidade possível" e iniciou estudos técnicos para viabilizar o projeto. A pergunta inevitável é: por que isso não foi pensado antes?
O episódio revela uma lógica preocupante na gestão pública: primeiro inaugura-se a obra para atender prazos políticos; depois, quando surgem os problemas enfrentados pela população, buscam-se soluções emergenciais. O cidadão, nesse intervalo, vira estatística em potencial.
Não se trata de ser contra investimentos em infraestrutura. Campinas precisa de obras viárias e melhorias logísticas. Mas nenhuma obra pode ser considerada completa quando ignora a segurança das pessoas que vivem ao redor dela. Desenvolvimento não pode significar apenas fluidez para veículos. Precisa incluir dignidade e proteção para pedestres.
A futura construção da passarela é necessária e urgente, mas ela não deveria surgir apenas após pressão popular, denúncias da imprensa e atuação da Justiça. O mais grave é que a duplicação da rodovia foi executada sem considerar a realidade das pessoas mais humildes que vivem na região e precisam atravessar a pista todos os dias.