Quando a 'Estrela' ameaça apagar

Quando a ‘Estrela’ ameaça apagar definitivamente

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Durante décadas, a fabricante de brinquedos Estrela ocupou um espaço raro no imaginário brasileiro. Não enquanto empresa, mas enquanto memória afetiva de uma infância embalada em caixas coloridas, reunindo gerações em torno do Autorama, do Banco Imobiliário, da Susi e do Genius. E é justamente por isso que o pedido de recuperação judicial anunciado nesta semana provoca, além da preocupação econômica óbvia, uma sensação coletiva e incômoda de perda simbólica.

O caso da fabricante, que completará 89 anos de história em junho deste ano, está longe de ser um caso isolado. O Brasil vive um período em que até as empresas tradicionais, marcas consolidadas e gigantes empresariais históricos têm sucumbido ao peso dos juros altos, do crédito restrito, da transformação digital acelerada e de um mercado consumidor cada vez mais fragilizado.

No caso da Estrela, a crise expõe uma combinação cruel: mudança de hábitos e incapacidade de adaptação rápida. As crianças trocaram parte dos brinquedos físicos pelas telas, pelos jogos on-line e pelo entretenimento digital. Concomitantemente, o avanço dos importados baratos reduziu ainda mais a competitividade da indústria nacional como um todo. A própria empresa reconheceu as dificuldades causadas pelo alto custo de capital e pelas restrições de crédito.

E o pior está por trás dos números e dos comunicados ao mercado: os trabalhadores que vivem a angústia silenciosa de não saber se o emprego sobreviverá aos próximos meses. São famílias inteiras dependentes da estabilidade de uma companhia histórica. Comerciantes do entorno, fornecedores, transportadores e pequenos prestadores de serviço acabam sendo arrastados pela turbulência das grandes corporações.

Embora a Estrela tenha sede administrativa em São Paulo, sua presença industrial também impacta diretamente o interior paulista e as cidades próximas da Região Metropolitana de Campinas (RMC), cujo setor industrial já enfrenta a desaceleração há anos.

Talvez o aspecto mais preocupante seja justamente a normalização desse cenário. Recuperações judiciais tornaram-se frequentes demais, corriqueiras. E quando crises deixam de ser exceção para virar rotina, o país começa a corroer silenciosamente a sua capacidade produtiva, sua memória industrial e sua confiança econômica.

Um país que perde as suas empresas tradicionais, perde também parte de sua identidade econômica, cultural e social. E nenhuma sociedade consegue "brincar" de futuro quando o presente não oferece segurança nem esperança para quem trabalha..