Crise de rua exige ação integrada e urgente
A invisibilidade das pessoas em situação de rua em Campinas deu lugar a uma estatística alarmante que reflete não apenas o crescimento da vulnerabilidade social, mas o esgotamento das políticas públicas atuais. Dados recentes do serviço 156 da Prefeitura revelam que as queixas de moradores e comerciantes atingiram o patamar de 522 registros em 2025, o que representa uma alta histórica e um sintoma claro de que a convivência urbana está sob forte tensão.
Esse aumento nas reclamações caminha lado a lado com o crescimento do próprio contingente nas calçadas. O censo mais recente realizado na metrópole identificou 1.557 pessoas vivendo ao relento, o que significa um salto de quase 40% em relação aos anos anteriores. O perfil mapeado expõe a fragilidade do sistema, pois a maioria é composta por homens jovens e pardos, muitos dos quais migraram de outras cidades da região em busca de suporte cujos municípios de origem falharam em oferecer.
A insistência em soluções isoladas tem se mostrado ineficaz para frear o fenômeno. De um lado, a administração municipal foca em operações de recâmbio para cidades de origem e abordagens de zeladoria, enquanto, de outro, a sociedade civil clama por segurança e limpeza urbana.
No entanto, o que os números do 156 gritam é que o problema não se resolve apenas com a retirada física das pessoas ou com a repressão aos sintomas da pobreza extrema. A questão exige uma articulação integrada que uma assistência social, saúde pública, habitação e segurança de forma simultânea.
A realidade atual em Campinas demonstra que as ações fragmentadas apenas empurram o problema de uma rua para outra ou de um bairro para o seguinte. A alta nas queixas indica que o incômodo da população domiciliada cresce na mesma medida em que o desespero de quem não tem onde morar se aprofunda.
É urgente que o poder público lidere uma coalizão regional para que o atendimento não fique sobrecarregado em um único polo e que existam políticas de porta de saída como moradia primeiro e programas reais de geração de renda.
Sem uma mudança de rota que priorize a dignidade humana e a integração de esforços entre as cidades vizinhas e as secretarias municipais o cenário de 2026 tende a ser ainda mais crítico. O conflito instalado nas esquinas campineiras não será solucionado com protocolos burocráticos ou medidas paliativas, mas com o reconhecimento de que a rua é o estágio final de uma série de falhas sociais que precisam ser corrigidas na origem, sob pena de transformarmos a metrópole em um eterno campo de batalha entre o direito à cidade e a luta pela sobrevivência.