Os 'invisíveis' que estão à vista de todos
Os ‘invisíveis’ que permanecem à vista de todos
Campinas convive, cada vez mais, com uma paisagem que se impõe sem pedir licença. O crescimento da população em situação de rua não é um fenômeno isolado, tampouco recente, mas ganha cada vez mais escala e complexidade, desafiando respostas fáceis e expondo a limitação do poder público diante de uma questão que é, ao mesmo tempo, social, jurídica e humana.
Dados recentes da Prefeitura ajudam a dimensionar o problema. Levantamento recente do poder público municipal, em parceria com a Fundação Feac, aponta 1.557 pessoas em situação de rua na metrópole. Destas, cerca de 1,3 mil vivem, efetivamente, nas ruas, enquanto pouco mais de duas centenas estão em abrigos. Em 2021, eram 932.
Em poucos anos, portanto, Campinas assistiu a um salto de quase 40%, um crescimento de pessoas nessa situação, algo que não pode ser tratado como uma oscilação pontual. Há uma concentração significativa dessa população na região central.
A equação é conhecida, mas está longe de ser resolvida. De um lado, a Constituição garante o direito de ir e vir. Ou seja, na prática, o Estado não pode simplesmente "tirar" alguém das ruas contra a sua vontade. De outro, a permanência prolongada nessas condições frequentemente está associada a quadros de dependência química, transtornos mentais e ruptura de vínculos familiares, fatores que dificultam qualquer política de reinserção.
Nesse contexto, cresce um componente particularmente preocupante: o avanço do consumo de álcool e drogas em níveis degradantes. Relatos recorrentes de profissionais da assistência social apontam para o uso de substâncias improvisadas e perigosas. O país viveu recentemente um surto de intoxicação por metanol, associado a bebidas adulteradas, que deixou mortos e centenas de casos suspeitos.
Não é exagero dizer que o problema deixou de ser apenas social para se tornar também uma questão de saúde pública. A deterioração física e mental dessa população pressiona o sistema de saúde, amplia a sensação de insegurança urbana e desafia políticas assistenciais que, muitas vezes, esbarram na recusa do próprio atendimento.
E aqui reside um dos pontos mais sensíveis e menos debatidos. O modelo brasileiro de abordagem, com base quase exclusivamente na adesão voluntária, limita a ação do poder público. Sem instrumentos legais mais claros para intervenções em casos extremos, a prefeitura atua, muitas vezes, como espectadora de uma tragédia cotidiana.
Isso não significa defender soluções simplistas ou autoritárias. Contudo, é evidente que a omissão, travestida de respeito irrestrito à autonomia individual cobra um preço alto.
Enquanto esse debate não avança com seriedade, e coragem, Campinas seguirá assistindo ao crescimento de uma população que, embora visível nas calçadas, permanece invisível para as soluções efetivas.