Por mais medidas protetivas às mulheres
Apesar de avanços legislativos importantes nas últimas décadas, o Brasil segue convivendo com índices alarmantes de feminicídio. A persistência desse crime evidencia uma contradição incômoda: há leis, planos e campanhas, mas falta efetividade real na proteção das mulheres. O problema, portanto, não está apenas na ausência de políticas públicas, mas sobretudo na incapacidade de implementá-las de maneira consistente, integrada e contínua em todo o território nacional.
A tipificação do feminicídio como crime hediondo e a criação de mecanismos como medidas protetivas representam conquistas inegáveis. No entanto, esses instrumentos frequentemente esbarram em entraves estruturais. Delegacias especializadas insuficientes, ausência de equipes multidisciplinares, morosidade judicial e falhas na fiscalização das medidas de proteção formam um cenário que, na prática, deixa milhares de mulheres desamparadas. Em muitos casos, o Estado só se faz presente após a violência atingir seu desfecho mais extremo.
Outro ponto crítico é a desigualdade regional. Enquanto alguns centros urbanos contam com redes de apoio mais robustas, regiões periféricas e áreas rurais permanecem desassistidas. Essa disparidade compromete a universalidade das políticas públicas e reforça um ciclo de vulnerabilidade, especialmente entre mulheres negras, pobres e em situação de isolamento social. A falta de dados integrados e atualizados também dificulta o diagnóstico preciso e a formulação de estratégias eficazes.
Além disso, políticas de prevenção ainda são tratadas como secundárias. Campanhas educativas são pontuais e carecem de continuidade, não conseguindo enfrentar de forma estrutural a cultura de violência de gênero. Sem investimento consistente em educação, conscientização e transformação social, o combate ao feminicídio se limita a respostas reativas, incapazes de interromper o problema em sua origem.
É preciso reconhecer que o enfrentamento ao feminicídio exige mais do que legislação: requer vontade política, financiamento adequado e articulação entre diferentes esferas de governo. A integração entre segurança pública, saúde, assistência social e educação é fundamental para criar uma rede de proteção efetiva. Também é imprescindível capacitar profissionais para lidar com vítimas de forma humanizada e eficiente.
Sem essas mudanças, o país continuará acumulando estatísticas que refletem não apenas a violência de indivíduos, mas a negligência institucional. Combater o feminicídio de forma eficaz é, antes de tudo, uma questão de prioridade política e compromisso com a vida das mulheres.