Uma data longe para se comemorar

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Neste domingo, celebra-se o Dia Internacional da Mulher. Porém, não muito para as mulheres comemorarem. Os recentes casos de estupros coletivos no Rio de Janeiro com jovens revelam que a sociedade brasileira está cada vez mais ficando alienada ao combate da violência contra a mulheres, ao feminicídio e a misogenia. Isso só mostra a fragilidade das políticas públicas voltadas à proteção feminina e evidencia a incapacidade do Estado em enfrentar um problema estrutural que atravessa gerações.

Nos últimos anos, os números de agressões, ameaças e feminicídios cresceram de forma alarmante. Delegacias registram diariamente relatos de mulheres que buscam ajuda após sofrer violência física, psicológica ou sexual. No entanto, para muitas delas, o caminho até a proteção efetiva ainda é longo e incerto. A distância entre a denúncia e a garantia de segurança concreta continua sendo um dos principais obstáculos no combate a esses crimes.

Embora o Brasil possua legislações importantes voltadas à proteção das mulheres, a existência da lei, por si só, não é suficiente. Falta investimento consistente em políticas públicas capazes de transformar o texto jurídico em proteção real. Delegacias especializadas são insuficientes para atender a demanda, casas de acolhimento permanecem escassas em diversas regiões e equipes multidisciplinares de apoio às vítimas ainda são uma exceção no sistema público.

Além disso, muitas mulheres enfrentam barreiras culturais e institucionais ao denunciar seus agressores. O medo de represálias, a dependência econômica e a descrença na resposta das autoridades contribuem para a subnotificação dos casos. Assim, a violência doméstica permanece, em grande parte, escondida dentro das próprias casas, onde o silêncio se torna cúmplice involuntário da impunidade.

Outro problema evidente é a falta de continuidade nas políticas de enfrentamento. Programas são frequentemente anunciados, mas raramente recebem financiamento suficiente ou acompanhamento adequado para garantir resultados duradouros. Sem planejamento de longo prazo e sem integração entre diferentes áreas do poder público, as ações se tornam fragmentadas e pouco eficazes.

Combater a violência contra a mulher exige mais do que discursos institucionais ou campanhas pontuais. É necessário fortalecer redes de proteção, ampliar o acesso à justiça, garantir acolhimento às vítimas e investir em educação para a igualdade de gênero desde as escolas. Trata-se de uma mudança cultural e institucional que demanda compromisso permanente do Estado e da sociedade.

Enquanto a violência continuar avançando mais rápido que as políticas de proteção, o país seguirá falhando com milhões de brasileiras. Enfrentar essa realidade não é apenas uma questão de segurança pública, mas de direitos humanos, cidadania e dignidade.